março 31

Bravura Indômita

0
0

Após o assassinato de seu pai, Mattie Ross (uma adolescente de 14 anos, vivida por Hailee Steinfeld), sai em busca de justiça; mas para encontrar o assassino – um bandido conhecido como Tom Chaney (Josh Brolin) – Mattie precisa dos serviços de alguém que possa “caçar” o foragido. Para isso ela contrata o oficial Rooster Congburn (Jeff Bridges), um homem da lei que possui desvios de caráter e forte apreço pelo álcool. No entanto, Mattie e Congburn não são os únicos a buscar Tom Chaney: um Texas Ranger, chamado LaBoeuf (vivido por Matt Damon) também está à procura de Chaney pelo assassinato de um senador no estado do Texas.

Hailee Steinfeld e Jeff Bridges em Bravura Indômita
     Hailee Steinfeld e Jeff Bridges em Bravura Indômita

O trio se aventura no ambiente hostil de um território indígena onde Chaney estaria escondido na companhia de outros bandidos. A presença de Mattie torna o grupo de justiceiros totalmente incomum. Juntos eles enfrentam os perigos de um território inóspito, sob o rigor do inverno. A personalidade forte e as características marcantes de Mattie são a tônica do enredo, onde a coragem, a persistência e o sentimento de justiça vão além do medo e dos “rótulos sociais” da época.

Hailee Steinfeld e Matt Damon em Bravura Indômita
   Hailee Steinfeld e Matt Damon em Bravura Indômita

No melhor estilo Velho Oeste, Bravura Indômita é adaptação do romance homônimo de Charles Portis (publicado em 1968). Dirigido pelos irmãos Ethan e Joel Coen, o filme foi lançado oficialmente em dezembro de 2010 nos EUA e em fevereiro de 2011 no Brasil. Indicado a dez Oscars, entre eles: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Jeff Bridges) e Melhor Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), o longa é um drama com pitadas de humor sarcástico, e boas doses de ação e aventura.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

Google Imagens

https://pt.wikipedia.org/wiki/True_Grit_(2010)

-7

Category: Cinema | LEAVE A COMMENT
março 16

Geni e o Zepelim – uma análise do clássico buarqueano

0
0

Composta e cantada por Chico Buarque, Geni e o Zepelim é um clássico do cancioneiro brasileiro, uma conhecida representante da boa música nacional. A canção, integrante do musical A ópera do malandro (1978) – cujo texto baseia-se na Ópera dos Mendigos (1918) de John Gay e na Ópera dos Três Vinténs (1928) de Bertold Brecht e Kurt Weill é ambientado num bordel e aborda a malandragem brasileira – também faz parte do álbum e do filme de mesmo nome lançados, respectivamente, em 1979 e 1986 (Wikipedia).

Na canção a história de Geni é brevemente contada pelo poeta, sendo a musa apresentada por alguém que canta sua trajetória de vida – um observador, que não só vê o que acontece à personagem, mas também parece perceber o que se passa em seu íntimo, como se conseguisse “ler” seus sentimentos. Embora a letra apresente sempre termos femininos para se referir à Geni, não há a certeza de que ela pertença a este gênero.

No musical A Ópera do Malandro, Geni, na verdade, é Genivaldo – um travesti – conhecido na cidade apenas pelo seu apelido. Geni não possui sobrenome – fato que nos remete à invisibilidade social daqueles que nascem, vivem e morrem, sem o devido reconhecimento da sociedade que os cerca. São muitas Marias e Josés e tantos outros que deixam como legado apenas o rastro invisível da não importância.

Imagem meramente ilustrativa
             Imagem meramente ilustrativa

Geni pode ser uma mulher ou um travesti – este fato pouco importa. O que a canção nos dá como certo é que Geni se prostitui desde a infância, como demonstra o verso: “Dá-se assim desde menina”. A prostituição infantil se constitui situação lastimável a que muitas crianças são submetidas devido às suas condições de vida, a ausência da proteção da família e do Estado e tantos outros fatores que influenciam neste grave problema social.

Segundo a UNICEF, em 2010, cerca de 250 mil crianças (principalmente meninas) encontravam-se em situação de prostituição no Brasil (Brasil Escola). A falta de assistência social e psicológica também se constituem fatores que contribuem para a fragilização da criança e sua consequente exploração sexual (Brasil Escola).

Geni não é a garota de programa de luxo que possui clientes ricos ou famosos. No verso “O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes” vê-se a classe social dos clientes de Geni. Assim como ela, também invisíveis para a sociedade, excluídos; aqueles a quem nada é ofertado. “É a rainha dos detentos” – os que vivem à margem da lei também usufruem dos dotes de Geni.

A orientação sexual da personagem se mostra mais clara no decorrer da canção, pois no início apenas indivíduos do sexo masculino são citados; mas ao mencionar ‘as loucas’ e ‘as viúvas’, percebemos que Geni (mulher ou travesti) é bissexual.

Por não negar se deitar com ninguém, a personagem é descrita pelo poeta como ‘um poço de bondade’ – motivo pelo qual a cidade a repele bruscamente. O asco que a cidade nutre por Geni fica claro no refrão: “Joga pedra na Geni! (…) Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! (…) Maldita Geni!”

Porém, um dia surgiu nos céus ‘um enorme Zepelim’, que, pairando sobre a cidade começou a disparar tiros de canhão, abrindo milhares de orifícios. Aterrorizados com a destruição anunciada, a cidade paralisou-se diante do Zepelim gigante, julgando que nada poderia ser feito. No entanto, do enorme dirigível, desceu o seu comandante, resoluto em explodir a cidade devido ao horror que viu nas ações de seus habitantes; porém, não o faria, desde que sob uma condição: se Geni o “servisse” naquela noite.

O comandante, representa na canção de Buarque, o luxo e o poder; um capitalista que julga-se superior a ponto de querer destruir uma cidade inteira por seu bel-prazer. A subserviência para com os mais afortunados também pode ser subentendida aqui, no momento em que a cidade decide não confrontar o comandante, mas apenas obedecer à sua vontade. Ironicamente, na canção, os opressores de Geni passam para a condição de oprimidos.

Imagem meramente ilustrativa
            Imagem meramente ilustrativa

Incrédula, a cidade não aceitava que seu destino estivesse nas mãos daquela por quem nutriam tanto ódio. Mas Geni tinha sua dignidade (embora a cidade não enxergasse isto), e ‘preferia amar com os bichos’ do que ‘deitar com homem tão nobre / tão cheirando a brilho e a cobre’. Talvez o asco que a personagem experimentou a vida inteira vindo de seus conterrâneos abastados, tenha feito com que ela também criasse por eles certo nojo como resposta.

Mas ao perceberem que Geni não se interessava pelo comandante e temendo por suas vidas, ‘a cidade em romaria foi beijar a sua mão’. A hipocrisia tão marcante em nosso meio aparece aqui claramente exposta pelo poeta, quando a cidade muda completamente de atitude em relação à personagem, passando a tratá-la como ‘bendita’. Geni vai de pecadora à santa num instante.

Comovida com os pedidos a amante cede aos desejos do comandante e salva a cidade que tanto a maltratava. Mas nem bem viram-se livres da enorme ameaça, os conterrâneos de Geni voltam a bradar em coro seu canto moralista, repleto de ódio, preconceito e intolerância.

O refrão “Joga pedra na Geni!” transformou-se numa espécie de bordão para retratar pessoas que se tornam alvo da execração pública (Wikipedia), seja por sua classe social, orientação sexual, raça, credo, posicionamento político, ou qualquer outro aspecto ou condição.

Geni é a trans assassinada, é o menino da favela, é a prostituta na calçada, é o homossexual na família, é a mulher violentada, é o negro escarnecido, é o idoso órfão dos próprios filhos. Geni é todo aquele que não tem nome nem sobrenome, não possui endereço, não tem profissão, não tem espaço, não tem vez e não tem voz. Geni é todo aquele que nasce e morre como indigente, sem nunca ser visto e nem reconhecido, sem nunca ser alguém.

E em nossa hipócrita “inocência” que nunca nos faz agressores, apenas vítimas, “esquecemos” de dizer em voz alta que também somos parte da opressão, da exclusão, do preconceito, do abandono. Em suma, como foi dito sabiamente por alguém: “Nós somos Geni, mas também somos a cidade”.

 

Núrya Ramos

 

No vídeo abaixo, Letícia Sabatella interpreta majestosamente Geni e o Zepelim.

Fontes:

Google Imagens

http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/prostituicao-infantil.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Geni_e_o_Zepelim

-14

Category: Música | LEAVE A COMMENT
março 3

Terror religioso

0
0

Há alguns dias um fato extremamente repulsivo chocou a população da Nicarágua. Uma mulher de 25 anos foi queimada em uma fogueira por fanáticos religiosos num suposto ritual de “purificação religiosa”. Os responsáveis pela morte de Vilma Trujillo García acusaram a vítima de estar possuída pelo demônio – justificando assim o cruel ritual (El País).

De acordo com a Polícia Nacional da Nicarágua, a jovem foi levada, no dia 15 de fevereiro, para o templo da Igreja Evangélica Visão Celestial das Assembleias de Deus, em El Cortezal (comunidade economicamente desfavorecida, localizada próximo ao município de Rostia), para que passasse por uma “oração de cura”. No entanto, o que se seguiu foi um assassinato com requintes de crueldade e, possivelmente, orquestrado com extrema frieza.

No dia 21 de fevereiro, seis dias depois da suposta “oração de cura”, testemunhas do ocorrido declararam que a vítima – considerada ‘endemoninhada’ – teve os pés e mãos amarrados e foi lançada a uma fogueira feita no pátio do templo (G1). Não há relatos de que a vítima tenha permanecido em cárcere privado durante os seis dias entre sua “ida” ao templo e o ritual na fogueira.

Segundo a Polícia Nacional, a diaconisa da igreja, Esneyda del Socorro Orozco, foi a responsável por ordenar a execução do ritual, pois “por revelação divina, deveria ser feita uma fogueira no pátio do templo para curar a vítima por meio do fogo” (G1). O grotesco fato teria se dado sob supervisão do pastor da igreja, identificado pelas autoridades como Juan Gregorio Rocha Romero, juntamente com outros quatro membros da citada igreja. A Assembleia de Deus, através de seu presidente, Rafael Arista, nega reconhecer Rocha Romero como pastor ou membro da congregação (G1).

A jovem sofreu queimaduras de primeiro e segundo graus em 80% do corpo; chegou a ser levada a um hospital na capital Manágua e, após uma semana de intensa agonia, acabou falecendo no dia 28 de fevereiro (G1), em decorrência da gravidade dos traumas a que foi submetida.

Reynaldo Peralta, marido da vítima
Reynaldo Peralta, marido da vítima

Vilma Trujillo é mãe de duas crianças. Segundo o marido dela, Reynaldo Peralta, sua esposa foi levada à força pelos integrantes da Igreja, sob a acusação de que ela teria atacado pessoas com um facão. Para ele, sua mulher não estava “possuído pelo demônio” como acusavam os membros da igreja que a levaram, e sim, que ela havia sido vítima de “bruxaria” (G1). Ainda de acordo com o marido da vítima, ela teria sido estuprada; no entanto, as autoridades nicaraguenses não confirmam este crime. Reynaldo Peralta também denunciou às autoridades que ele e sua família estão sendo ameaçados (El País).

Até o dia 01 de março, cinco pessoas já haviam sido detidas por suspeita de participação no crime, entre elas estão o ‘pastor’ Rocha Romero e a diaconisa Esneyda Orozco (já citados neste post). Em sua defesa, Rocha Romero afirmou ao jornal La Prensa que Trujillo não foi lançada na fogueira, e sim, que ela teria caído no fogo “quando o espírito do demônio saiu do corpo dela” (G1).

Suspeitos detidos pela participação no crime
Suspeitos detidos pela participação no crime

Desde o acontecimento, há uma verdadeira comoção na Nicarágua em torno do caso. Naquele país o número de evangélicos tem crescido (chegando a quase 40% da população), em contraponto o número de católicos vem caindo há 20 anos (atualmente eles correspondem a menos de 50% do total). Pablo Cuevas, porta-voz da Comissão de Direitos Humanos da Nicarágua “pediu ao governo um controle mais firme dos grupos religiosos no país” (G1). Ainda segundo Cuevas, “as autoridades precisam avaliar diferentes denominações e religiões” (G1).

A vice-presidente da Nicarágua, Rosario Murillo, classificou o episódio como ‘condenável’ e afirmou que ele reflete uma situação de atraso; disse ainda que é “lamentável, uma irmã sendo martirizada pelos membros de sua comunidade” (G1).

Em declaração ao El País, Juanita Jiménez, integrante do Movimento Autônomo de Mulheres da Nicarágua – uma das organizações feministas mais combativas – disse que as autoridades precisam investigar profundamente o caso. Para ela, houve uma tentativa de encobrir o abuso sexual supostamente cometido contra a vítima (El País).

“Há uma total desproteção institucional para as mulheres. Não há autoridades combativas que persigam este tipo de delito, que fica na impunidade. Este é um exemplo do retrocesso em direitos humanos que o país sofre, um retrocesso que recoloca o país no obscurantismo”, acrescentou a feminista nicaraguense (El País).

O caso Vilma Trujillo revela problemas sociais graves – em especial a violência contra a mulher e o fanatismo religioso. Em 2013, a Nicarágua presenciou manifestações de homens contra a Lei Integral Contra a Violência Cometida contra Mulheres. Conhecida como lei 779, a normativa “estabelece a punição de até 30 anos de prisão para homens que exerçam violência física ou psicológica contra meninas, adolescentes e mulheres adultas” (BBC).

“Os manifestantes, apoiados por organizações civis e representantes das igrejas católica e evangélica, dizem que a legislação”, que entrou em vigor em 2012, “rompe o princípio constitucional de igualdade” (BBC). Nota-se que a comunidade evangélica daquele país não se posicionou contra a violência de gênero (ou dela fez pouco caso) por, talvez, definir que a mulher esteja em “pé de igualdade” em relação ao homem. Hoje, esta mesma comunidade, vê o nome de uma de suas congregações atrelado a uma violência descomunal e sem limites.

Protesto contra os feminicídios em Manágua
Protesto contra os feminicídios em Manágua

Já naquela época, os defensores da lei citada acima, advertiam para o fato de que a mesma não continha as agressões e assassinatos de crianças, adolescentes e mulheres. Ainda em 2013, a Secretaria da Mulher e da Infância afirmou que, em todo o país, eram apresentadas cerca de 97 denúncias por dia relacionadas a atos de violência contra a mulher (BBC).

No mesmo ano, alguns setores da igreja evangélica nicaraguense coletaram assinaturas contra a lei 779, por considerar que “há um comportamento tradicional que a mulher deve cumprir” (BBC). Relaciona-se, deste modo, que a visão conservadora sobre a mulher e seu papel na sociedade fomenta, em muitos casos, os atos de violência.

Percebe-se, não só pelo caso Vilma Trujillo, mas por inúmeros outros casos e fatos históricos (como por exemplo a Santa Inquisição, promovida pela Igreja Católica durante a Idade Média), que o fanatismo religioso é extremamente danoso para a sociedade, pois caracteriza-se “pela devoção incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção religiosa” (Wikipedia).

O termo fanatismo tem origem religiosa (do latim fanaticus – inspirado pelos deuses). Entre os romanos, denominava-se, assim, “o indivíduo inspirado pela divindade ou “impregnado” da presença divina” (Wikipedia). Os fanáticos religiosos acreditam ter contato direto com as divindades nas quais acreditam; e é pautando-se nesta crença que eles justificam seus atos mais cruéis, sob a justificativa de purificar algo ou alguém.

Embora não se admitam violentos ou intolerantes, estes indivíduos cometem toda sorte de atrocidades em nome daquilo em que acreditam, mesmo que seus atos custem a vida de outrem ou o bem estar da coletividade. Este tipo de fanáticos não admite coexistir com outras religiões que preguem doutrinas que divergem da(s) sua(s); abominam a homossexualidade, como se esta fosse uma aberração da natureza; não admitem a existência de pessoas que não possuam crença em Deus; negam qualquer grupo que não seja aquele formado de acordo com seus preceitos como família; são contra métodos contraceptivos, e etc.

Infelizmente, o caso Vilma Trujillo não é único e dificilmente será o último em que o fanatismo religioso lança mão da violência contra a mulher para cumprir aquilo em que acredita. Intolerância e total ausência de respeito para com o próximo é o que denomina esses seres vis, cruéis e abomináveis, que tanto julgam se achando ‘donos da verdade’, mas que não passam de uma escória, que se pauta na violência, na humilhação, na dominação e na opressão para se fazer superior, pois estes são os únicos meios que conhecem para que sejam vistos pelos demais.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/07/130704_direito_mulheres_nicaragua_gm

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/28/internacional/1488301755_112117.html

http://g1.globo.com/mundo/noticia/mulher-morre-apos-ser-jogada-em-fogueira-por-grupo-religioso-na-nicaragua.ghtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/caso-de-mulher-possuida-queimada-em-fogueira-em-igreja-evangelica-choca-nicaragua.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fanatismo_religioso

-12