agosto 21

Violência à língua portuguesa ou Do “estupro” cultural

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Reforma ortográfica na nova reforma ortográfica? Não, você não entendeu errado. É esta a nova proposta (em elaboração) da Comissão de Educação do Senado, que pretende colocá-la em vigor a partir de 2016. As novas regras devem ser apresentadas até 12 de setembro e podem alterar a última reforma implementada na Gramática. O tal projeto visa facilitar o ensino e aprendizagem da língua portuguesa, reduzindo o número de regras e exceções da mesma. A Comissão defende que isto ampliará o debate com pessoas de outros países que também falam português.

Os professores de português Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel responsável pelo site simplificandoaortografia.com estão reunindo “sugestões” para compor o conjunto que pretendem apresentar entre 10 e 12 de setembro no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, em Brasília. O projeto será levado ao Senado, que por sua vez realizará uma audiência pública a respeito do mesmo. O objetivo é que a versão final fique pronta até maio de 2015, para que somente então entre em votação e posteriormente em vigor (caso seja aprovada). O Senado ainda enfrentará outro desafio: convencer todos os países que falam português a aderir à reforma.

reforma_ortografica

Veja algumas das bizarrices da nova proposta:

– O H que existe no início de certas palavras deverá sumir. Em vez de escrever HOJE, você passará a escrever OJE.

– Palavras com G que usam o U para compor seus sons deverão perder esta última letra. GUITARRA passará a ser GITARRA.

– O CH deve ser substituído pelo X: CHÁ será a partir de então escrito assim: XÁ.

– Palavras onde o S tem som de Z, passarão a ser escritas da maneira como se fala. ASA ficará assim: AZA.

– O X com som de Z irá sumir e dar lugar ao Z: EXAME passará a ser escrito EZAME.

– C antes de E e I vira S: CEDO ficará assim: SEDO.

– SS vira S: NOSSA passa a ser NOSA.

– SC antes de E e I vira S: NASCIMENTO vira NASIMENTO.

– XC com som de S vira S: EXCETO passa a ser ESETO.

Não é de hoje que o governo brasileiro vem deteriorando nosso país bem como nosso sistema educacional. Como se não bastasse que a política pública de educação do Brasil esteja em petição de miséria, o governo agora tenta violentar a nossa língua mãe com desculpas esfarrapadas e vergonhosas. O que estão tentando fazer? Enterrar e jogar uma pá de cal sobre nossa língua e nossa cultura? Não, governantes; não é assim que vocês tornarão o ensino do português mais fácil. Isso se dará com uma Educação Básica de qualidade; com escolas bem estruturadas e acessíveis a cada brasileiro, com bons livros, com uma equipe profissional bem preparada, bem remunerada e valorizada. Não é violentando nossa língua materna que os problemas com a educação no Brasil estarão sanados. Isto é uma medida do tipo “empurra com a barriga”, “joga o lixo debaixo do tapete”.

Onde ficam as culturas dos povos que falam português? Precisaremos mudar séculos de história literária em nome de uma reforma ridícula, “sem pé nem cabeça”? Onde está a valorização aos profissionais que se dedicam a ensinar esta língua, levando a alunos a galgar patamares literários com uma escrita de “encher os olhos”? O que fazer com os milhões de brasileiros já alfabetizados na antiga gramática (que nem bem “engoliram” o novo acordo e já se deparam com este)?

língua portuguesa

Teremos que reescrever os clássicos da literatura e perder com isso uma grande demonstração cultural da época em que foram escritos? O que faremos com os clássicos de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo, José de Alencar, Cecília Meireles, Clarice Lispector e tantos outros? Por certo o governo dirá: ou serão submetidos a esse “estupro” literário ou serão destinados às latas de lixo por não se adequarem ao novo modelo. Dentro em breve, o governo chamará os clássicos de obsoletos, ultrapassados.

Para o Governo brasileiro não existe amor à cultura deste país, à Pátria, muito menos à língua materna: nosso meio de comunicação mais antigo. Julga o nosso governo que os brasileirinhos recém-nascidos são tão desprovidos de inteligência que não aprenderão as regras de nosso idioma? Nós aprendemos, eles também conseguirão. Acaso isto é uma estratégia para facilitar a vida de estrangeiros em nosso país? Se assim for, é bom relembrar que as outras nações não violentam seus idiomas em favor de estrangeiros; os estrangeiros, se assim desejarem, deverão aprender o idioma (fala e escrita) do país onde estão. Isto faz parte do aprendizado de novas culturas – coisa a que todos deveríamos ter acesso, como maneira de engrandecimento e enriquecimento pessoal.

A cada dia que passa o governo deste país cria mais estratégias de deixar a maioria, que constitui a grande massa eleitoreira, desprovida de meios que fomentem o pensamento próprio. O objetivo deste governo sempre foi, ainda é e, possivelmente, sempre será, ter sob seu próprio domínio um povo teleguiado; e que este povo não se engane: muitas medidas do governo são nada mais do que estratégias de hipnose em massa, onde os que são comandados como bonecos de marionete nem se dão conta deste comando e pior: gostam dele.

Abra os olhos, Brasil: “pequenas” atitudes como esta escondem atrás de si ideais cruéis. Esta proposta não é uma estratégia para facilitar o aprendizado; pelo contrário, ela faz parte de uma rede que visa barrar este mesmo aprendizado, fazendo você achar que está sendo auxiliado, quando na verdade está sendo manipulado, tornando-se um fantoche. Eles não querem que você cresça como ser pensante; e sim, que permaneça num estado de letargia mental.

Com tantos problemas neste país, o governo resolve “buscar soluções” para a nossa língua, como se esta fosse um problema não solucionado. Como bem disse “a doutora em Filologia Românica e professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unisinos, Dorotea Kersch, a proposta é um ‘absurdo, a legítima falta de ter o que fazer’”.

Núrya Ramos

 

Fonte:

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/comissao-do-senado-estuda-abolir-c-ch-e-ss-da-lingua-portuguesa-4577821.html?utm_source=Redes%20Sociais&utm_medium=Hootsuite&utm_campaign=Hootsuite

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março 25

O controle mental e o perigo da história única

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O que acontece com alguém que conhece apenas uma versão dos fatos? O que acontece com um povo que conhece apenas uma parte de sua história? O que acontece com todos os que conhecem apenas o que é permitido conhecer? É sobre isto que vamos debater hoje: o perigo da história única. Após assistir o vídeo de Chimamanda Adichie – escritora africana – uma enxurrada de questionamentos e pensamentos me veio à mente em segundos. Uma torrente. Um turbilhão invasivo, imediato, mas acima de tudo, perturbador. Até que ponto somos e podemos ser manipulados pelo governo, pela mídia, pelo marketing das grandes empresas, pelo poder dos dominantes?
O perigo da história única é devastador e cruel. Nossas crianças aprendem desde cedo histórias manipuladas, distorcidas, por governos, religiões, classes dominantes. Aprendem erroneamente sobre fatos históricos que são essenciais para sua formação cidadã, mas acima de tudo são essenciais para sua formação como seres humanos. Vejamos o caso da África: Ideias pré-concebidas e estereótipos sobre a África nunca desapareceram da mídia. Há diagnósticos precoces de que

a África está “falida” e seu futuro está comprometido pelas próximas gerações. […] Ensaístas africanos foram, inclusive, os primeiros a teorizar, no início dos anos 90, “a recusa ao desenvolvimento” manifestado pelo continente negro, ou a necessidade de um “ajuste cultural” (Grupo Nzinga de Capoeira Angola).

Confundido muitas vezes com um país, a África é, na verdade, um continente “reconhecido pela sua diversidade, desde os aspectos naturais até as características históricas e sociais” (Brasil Escola). De acordo com o PNUD 2013, dos 55 países africanos, 04 (Argélia, Líbia, Seychelles e Tunísia) apresentam um nível de desenvolvimento humano alto ou muito alto ficando à frente de países mais ricos da Europa e do Médio Oriente; outros 10 países apresentaram nível de desenvolvimento humano médio (entre estes estão Egito, Cabo Verde, Marrocos e África do Sul). Os níveis mais altos do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) sublinham “os avanços alcançados no continente na melhoria da educação, saúde e bem-estar social” (PEA).
Estes dados são uma prova de que o povo africano não apresenta uma recusa ao desenvolvimento como citado anteriormente e que o tal “ajuste cultural” é no mínimo contraditório: a que ou quem a África teria de se ajustar? Ao mundo ocidental? Aos europeus? Aos americanos? Ajustar-se culturalmente dentro da própria África? Essas são perguntas que, certamente, requisitam mais pesquisas para que possamos obter uma resposta. Mas é fato que um povo é o reflexo de sua cultura; é influenciado por ela e a influencia. Ajustar-se culturalmente poderia significar perda da identidade própria, daquilo que torna um povo único entre os demais.
O perigo da história única reside no fato de distorcer as ideias daqueles a quem são contadas. Transformar seres humanos em marionetes é o principal objetivo daqueles que propagam apenas uma versão dos fatos. De contos infantis a instâncias do governo, passando por religiões e mídia, as histórias únicas são “vendidas” como verdades absolutas, muitas vezes até incontestáveis. Impedem milhares de pessoas de conhecer verdadeiramente a realidade que as cerca, fazer melhores escolhas que influenciarão sua vida e a dos demais. Tem o poder de suscitar o ódio e o desprezo contra o semelhante; de fazer com que a visão das pessoas seja errônea, manipulada, condicionada a ver aquilo o que querem que seja visto.
Dedicar-se a conhecer o outro lado do que nos é contado e repassado pelas gerações anteriores ou por meios atuais é permitir-se entender os acontecimentos e através disso escolher um posicionamento; que, correto ou não, ao menos será uma opinião formulada pela sua própria cabeça depois de conhecer os fatos, e não imposta por outras pessoas que se dispõem a pensar por você. Seja um posicionamento político, religioso, social, ou apenas uma opinião sobre os assuntos que nos afetam de alguma maneira, é importante que seja algo de sua própria mente. A história única é sinônimo de alienação e lavagem cerebral. Abaixo temos o vídeo que suscitou este artigo.

Núrya Ramos

Fontes:

CONCHIGLIA, Augusta. África além dos preconceitos. Disponível em:

http://nzinga.org.br/pt-br/africa
http://www.africaneconomicoutlook.org/po/outlook/human_development/
http://www.brasilescola.com/geografia/africa-continente.htm

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