agosto 11

Como! és tu?

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Como! és tu?! essa grinalda
De flores de laranjeira! …
Branco véu, nuvem ligeira
Sobre o teu rosto a ondear!
Pálida, pálida a fronte
E os olhos quase a chorar!

És tu! bem vejo… não fales!
Cala-te! já sei o que é!
A mão vais dar, vida e fé
A outro!… Vais te casar.
Pálida, pálida a fronte,
Olhos em pranto a nadar!

E vais! e és tu mesma? — e vais!…
Fui eu quem te dei o exemplo…
Sei que te aguardam no templo,
Deixa-me aqui a chorar:
Fazes somente o que fiz,
Não fazes mais que imitar!

Mas eu quis ver-te feliz,
Não dar-te exemplo!… pensava
Que ileso e firme ficava
O teu amor — a guardar
A fé, que eu mesmo, insensato!
Fui o primeiro a quebrar!

Contradições d’alma humana!
Fui, sim, quem te dei o exemplo,
Isso quis, e ora contemplo
Essa grinalda — a chorar,
A fronte pálida, pálida,
E o branco véu a ondular!

E há de o mundo inda algum dia
Do olvido o véu tenebroso
Estender por tanto gozo,
Tanto crer, tanto esperar!
Vai que te aguardam: já tardas:
Deixa-me aqui a chorar!

Vai! e que os anjos derramem
Sobre ti flores, venturas,
Que as alegrias mais puras
Floresçam dos passos teus:
E que entres na casa estranha
Como uma bênção dos céus!

Que a fortuna — de veludos
Alcatife os teus caminhos,
Que o orvalho dos teus carinhos
A esse faça feliz
Com quem te casas — que te ame
Como te amei e te quis!

Porém procura esquecer-te,
Das venturas no regaço,
De mim, dos votos que faço,
De quanto pedi aos céus
Ver este dia… mas choro!
Vai! sê feliz! adeus!

Gonçalves Dias –

Manaus – 25 de junho de 1861

 

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/gdias05.html#amo

 

Artigo relacionado: http://oraculo-decassandra.rhcloud.com/2015/08/10/goncalves-dias-o-indianista-romantico/

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agosto 10

Gonçalves Dias – o indianista romântico

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Há exatos 192 anos, em 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, em terras de Jatobá, da cidade de Caxias, no interior do Maranhão, nascia um dos poetas de maior renome na literatura nacional – Gonçalves Dias. Nascido Antônio Gonçalves Dias, “se orgulhava de ter no sangue as três raças formadoras do povo brasileiro (branca, indígena e negra)” (Só História); também advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo, é um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como indianismo.

Em 1835 iniciou seus estudos em francês, latim e filosofia. Em 1838 terminou os estudos secundários em Portugal onde dois anos depois (com apenas 17 anos de idade) ingressou no Curso de Direito da Universidade de Coimbra. Ali, entrou em contato com os principais escritores da primeira fase do Romantismo português, compartilhando das ideias românticas de Almeida Garret, Alexandre Herculano e António Feliciano de Castilho.

Gonçalves Dias
Gonçalves Dias

Em 1843, inspirado na saudade que sentia de sua pátria, escreveu Canção do Exílio (link ao final do artigo), um dos poemas pelo qual é famoso e reconhecido até os dias atuais, no qual exalta as belezas de Caxias, sua terra natal, e demonstra imensa vontade de regressar às suas raízes. Trabalhou como professor de história e latim no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde também atuou como jornalista contribuindo para periódicos como: Jornal do Comércio, Gazeta Oficial, Correio da Tarde e Sentinela da Monarquia.

Em 1849, junto com Araújo Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo, fundou a revista Guanabara que se dedicava a divulgar o movimento romântico da época. Em 1851 volta à São Luís – capital do Maranhão – a pedido do governo. No ano seguinte pede Ana Amélia Ferreira Vale (sua musa inspiradora) em casamento, mas a família dela rejeita o pedido devido à ascendência mestiça do poeta. No mesmo ano (1852) retorna ao Rio de Janeiro e se casa com Olímpia da Costa.

Olímpia da Costa
Olímpia da Costa

Logo em seguida é nomeado oficial da Secretaria dos Negócios Estrangeiros, vindo a passar os quatros anos que se seguem na Europa realizando pesquisas em prol da educação nacional. Ao retornar ao Brasil é convidado a participar da Comissão Científica de Exploração – trabalho que o fez percorrer quase todo o norte do país.

Retorna à Europa em 1862 para tratar de sua saúde; não obtendo resultados positivos decide voltar ao Brasil em 1864 a bordo do navio Ville de Boulogne, que veio a naufragar na costa maranhense, no município de Guimarães. O poeta afogou-se durante o naufrágio, em 3 de novembro de 1864, aos 41 anos de idade.

Praça Gonçalves Dias em Caxias - MA. Ao centro uma estátua do poeta.
Praça Gonçalves Dias em Caxias – MA. Ao centro uma estátua do poeta.

Deve-se a Gonçalves Dias a consolidação do Romantismo no Brasil. “Isso porque o poeta trabalhou com maestria todas as características iniciais da primeira fase do Romantismo brasileiro. De sua obra, geralmente dividida em lírica, medieval e nacionalista, destacam-se I-Juca Pirama, Os Tibiramas e Canção do Tamoio” (Só História). Sua poesia saudosista e referente aos amores idos e vindos, também pode ser vista em Últimos Cantos (1851) e Se te amo, não sei (poema). Gonçalves Dias é um ícone literário brasileiro e um grande orgulho para Caxias (MA), sua terra natal.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gon%C3%A7alves_Dias

http://www.sohistoria.com.br/biografias/goncalves/

Google Imagens

 

Artigo relacionado: http://oraculo-decassandra.rhcloud.com/2015/08/01/cancao-do-exilio/

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agosto 1

Canção do Exílio

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Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

– Gonçalves Dias –

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