maio 15

Perdido em Marte

0
0

Durante uma missão a Marte uma equipe de seis astronautas se vê em meio a uma forte tempestade durante a noite; na tentativa de escapar eles se arriscam a deixar sua base para embarcar num módulo a fim de deixar o planeta vermelho. Mas durante a tentativa de fuga o astronauta Mark Watney (vivido por Matt Damon) é atingido por uma peça do equipamento, o que provoca uma ruptura no traje. O vazamento de oxigênio é fatal nestes casos, o que faz com que a equipe conclua de acordo com as circunstâncias que Mark está morto.

perdido em marte (2)

Cena de Perdido em Marte
                              Cena de Perdido em Marte

Deixado para trás por sua equipe num planeta árido, com suprimentos escassos, Mark precisa pôr seus conhecimentos em prática para conseguir sobreviver, tendo ainda como grande desafio enviar sinais à NASA de que está vivo e precisa ser resgatado. Ao tomar conhecimento de sua sobrevivência, a agência espacial americana mobiliza esforços a fim de trazer Mark de volta à Terra; para isto, eles precisam da ajuda da equipe da qual Mark fazia parte e que ainda está em viagem de volta para casa. Unidos a fim de salvar seu companheiro eles precisam tomar importantes decisões para que a missão mais importante de suas vidas não fracasse.

 

Lançado em 2015 com direção de Ridley Scott, Perdido em Marte conta com excelente trilha sonora (entre as músicas encontra-se Starman, do saudoso David Bowie) e doses generosas de humor inteligente. As estratégias traçadas por Watney para sobreviver no planeta vermelho nos instigam questionamentos sobre o que nós humanos somos capazes de fazer para sobreviver e como nossa evolução científica e tecnológica pode ser considerada a maior conquista da humanidade. As condições psicológicas a que se é submetido em situações adversas são abordadas com seriedade e leveza neste longa de excelente qualidade.

perdido em marte
                              Cena de Perdido em Marte

A espetacular atuação de Matt Damon nesta produção de ficção científica rendeu-lhe várias indicações, entre elas Oscar de Melhor Ator e a premiação com o Globo de Ouro de Melhor Ator em Musical ou Comédia. Perdido em Marte também teve sete indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado – por ser baseado no romance homônimo escrito por Andy Weir. “The Martian” (título original) é inteligente, instigante e bem humorado; seu enredo conquista o espectador a cada cena.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

Google Imagens

https://pt.wikipedia.org/wiki/Perdido_em_Marte

-18

Category: Cinema | LEAVE A COMMENT
julho 10

A Cor da Tempestade

0
0

Ciência, ficção científica, valores morais, história e uma dose generosa de romantismo – eis a receita de sucesso de A Cor da Tempestade. A obra trata-se de uma coletânea de contos do escritor e professor paranaense Mustafá Ali Kanso (premiado em 2004 com o primeiro lugar pelo conto “Propriedade Intelectual” e o sexto lugar pelo conto “A Teoria” (Singularis Verita) no II Concurso Nacional de Contos promovido pela revista Scarium). Publicado em 2011 pela Editora Multifoco, A Cor da Tempestade já está em sua 2ª edição – tendo sido a obra mais vendida no MEGACON 2014 (encontro da comunidade nerd, geek, otaku, de ficção científica, fantasia e terror fantástico) ocorrido em 5 de julho, na cidade de Curitiba.

Entre os contos publicados nessa coletânea destacam-se: “Herdeiro dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” (conto disponível abaixo) que juntamente com obras de Clarice Lispector foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.” Prefaciada pelo renomado escritor e cineasta brasileiro André Carneiro, esta obra não é apenas fruto da imaginação fértil do autor, trata-se também de uma mostra do ser humano em suas várias faces; uma viagem que permeia dois mundos surreais e desconhecidos – aquele que há dentro e o que há fora de nós.

Em sua obra, Mustafá Ali Kanso contempla o leitor com uma literatura de linguagem simples e acessível a todos os públicos. É possível sentir-se como um espectador numa sala reservada, testemunha ocular de algo maravilhoso e até mesmo uma personagem parte do enredo. A ficção mistura-se com a realidade rotineira de modo que o improvável parece perfeitamente possível. Ao leitor um conselho: ao abrir as páginas deste livro, esteja atento a todo e qualquer detalhe; você irá se surpreender ao descobrir o significado da cor da tempestade.

Núrya Ramos

 

Referências

http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Cor_da_Tempestade

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mustaf%C3%A1_Ali_Kanso

http://www.lambda42.com/megacon-2014/

 

Você pode adquirir A Cor da Tempestade através dos links abaixo:

Editora Multifoco: http://bit.ly/1lVoYbc

Livrarias Curitiba: http://www.livrariascuritiba.com.br/searchresults.aspx?type=2&dskeyword=A+COR+DA+TEMPESTADE

Space Castle:

http://spacecastle.com.br/produtos/detalhe/340/a-cor-da-tempestade#.U73sNZRdW1U

 

Segue transcrito – e gentilmente cedido pelo autor – o conto Uma carta para Guinevere. Desejo a todos uma maravilhosa leitura!

 

Uma Carta para Guinevere

 

Nas primeiras vezes que liguei me disseram que você já tinha saído. Depois, que você ainda não tinha voltado. Os meios de comunicação evoluem tanto, apenas as mentiras permanecem.

Fiquei no intercomunicador até o último minuto. Queria me despedir e, acima de tudo, precisava ouvir sua voz.

O lançador está partindo agora, com seus engenhos explosivos, ele nos alçará em breve numa órbita confortável. Somos cinco a bordo, empertigados em nossos trajes branco pérola. Dez braços de um polvo humano adestrado, cumprindo tarefas decoradas, quase automáticas.

Nesse momento somos apenas luzes piscando em um painel de controle, cuidadosamente alinhavados numa lista de procedimentos.

Existe essa estática embaralhando as ondas e uma conspiração entre o momento e a distância, algo que me impede de ser mais incisivo, de ser mais honesto. Assim estou deixando gravado a inutilidade dessas palavras que alguma máquina ainda irá decodificar em bits, transformar numa energia vibrante, irradiada para Terra. Depois de interconectada não sei por quantas torres de repetição, esses pulsos etéreos serão materializados em letras gotejadas em um papel. Um correio especial levará uma anacrônica carta com o timbre da agência espacial. Espero que ao lê-la consiga por fim entender o que essa máquina não soube traduzir.

Depois de sacudidos por quase vinte minutos, chegamos num único fôlego a essa visão privilegiada da Terra.

O arco azul que se estende ao derredor, feito um ícone de magnitude e beleza, continua o mesmo. Tão majestoso e isolado que não se percebe a real dimensão de todos os pequenos dramas que acolhe.

É irônico, com tanto espaço lá fora, nos espremermos em uma latinha prateada, carregando nas costas tudo o que nos mantém vivos.

É claustrofóbico pensar o quanto nos resta de oxigênio, ou de água, ou de alimento, ou mesmo de sonhos. E, depois de todo o exaustivo treinamento, é terrível indagar sobre o quanto resta de cada um de nós. Talvez sejamos menos que uma promessa. De alguma forma não explicitada, apenas cobaias bem treinadas correndo dentro de um gigantesco labirinto.

Posso ouvi-la dizendo, como já me disse tantas vezes:

– Profissão ingrata, essa sua!

Acho que você sempre teve razão. Que diabos de ofício eu tenho?

Sou o comandante de uma guilda de sonhadores. Herdeiro de uma pretensão delirante. Essa que nos constrange em artefatos dantescos e nos expõe à morte todos os dias, apenas para tentar conquistar um espaço que nunca será nosso.

Nossa cápsula deu mais uma volta na Terra. Assisti a Austrália singrando para o amanhecer enquanto a imensidão da Eurásia acendia suas cidades.

Pude ver.

Já é noite em Avalon e os mistérios seculares não conseguem competir com o nosso. Não da mesma maneira.

Mesmo perante a amplidão que nos cerca não me coube nesse espaço a grande proeza de não pensar em você.

Não consigo entender o porquê de nosso descompasso, dessa coleção de frases soltas, que nos enrodilhou em palavras impensadas. Das amarras que se quebraram e eu como um balão perdido das mãos de uma criança descuidada, segui esse insólito caminho pelo qual flutuou toda minha vida, conduzida por um vento estranho.

Quando recordo de você, de nós, de todas as coisas que eu poderia ter dito, ou calado, um sentimento de fragilidade me invade, como se o traje que me protege fosse forjado em vidro e uma rachadura no peito se ampliasse expondo ao vácuo o que carrego de mais sagrado.

Por quê? É isso que me pergunto todas as vezes que passo e repasso nossa história. Mesmo sabendo que não existem culpados nem inocentes. Apenas uma comédia triste. Um filme mudo sem acompanhamento, sem ninguém para assistir, a não ser os infelizes protagonistas.

Quem poderia imitar essa coleção de gestos tragicômicos? Meus desastrados passos que me levaram tão distante de você enquanto seu olhar perdido tentava inutilmente esconder o mais simples desespero.

Adiantaria dizer que me arrependo de todas as minhas partidas? Você saberia que não.

Amo a paisagem dessa clarabóia. Amo as coisas que o espaço revela e todas as outras que ele oculta. Fiz desse ofício minha vida, mesmo custando a família, os amigos. Mesmo custando você.

Porém, odeio voltar para um apartamento vazio. Se ao menos tivéssemos filhos, talvez eu conseguisse visualizar um ensaio de família, coisas e ruídos preenchendo esse tempo que se esvai.

Mas o momento passou e tomamos outras decisões.

Sou surpreendido agora pela definitiva verdade que sem você já não tenho mais nenhum porto para onde voltar.

Queria que pudesse compreender a luta que me trouxe até aqui. Toda uma juventude que se esvaiu, tragada por incansáveis horas de treinamento.

Queria que pudesse sentir essa emoção de quando navego sobre o planeta, como agora, olhando para o norte e o sul ao mesmo tempo, entendendo, que não importa quão grande sejam nossos feitos que sempre seremos pequenos.

É inconcebível essa expectativa quando vejo o instante que se aproxima. O exato momento em que cortaremos nosso cordão umbilical e nos projetaremos para muito longe de tudo. Uma inacreditável sucessão de acontecimentos fantásticos que chamamos simplesmente de missão.

Não importa que já não exista prestígio e que esse mergulhar no espaço já seja rotina. Que a multidão não me reconheça quando caminho pelas ruas; eu que sujei minhas botas com as areias de Marte; eu que já carrego na alma a poeira das estrelas. O que importa é que eu já estive lá. Pude ver a Terra como um simples ponto luminoso ou como uma semi-esfera azulada e mesmo assim nunca me senti tão próximo, tão conectado. Nunca me senti tão humano.

Não é fácil abrir mão do que nos define. Fazer ruir os pilares que nos sustentam. Sei que minhas aspirações não são pequenas. Mesmo com esse meu jeito impróprio de existir, olhando para vida como se fosse um brinquedo novo.

Queria que entendesse que logo serei transformado em energia; e tudo aquilo que fui será destruído. A Física nos ensina que não podem existir dois átomos iguais no universo. Assim, meu corpo será transformado em ondas. As máquinas guardarão minha receita e serei apenas vibração viajando dentro de um raio luminoso. Isso mesmo! Viajarei dentro de um raio de luz. Mesmo com todas essas sombras que ainda carrego!

Um dia você me chamou de Lancelot: um cavaleiro honrado em sua armadura brilhante buscando o graal inalcançável da ciência.

Logo eu que sempre fui um plebeu inebriado por essa quixotesca demanda, a ponto de não ver mais que minha imagem no espelho.

Que fronteiras acharemos? Não sei.

No entanto, a relatividade explica que quando eu voltar, séculos terão se passado. Serei para a história apenas uma tênue lembrança de um instante longínquo.

Quisera que o tempo fosse outro e que as decisões não fossem tão definitivas.

O que importa agora é que repetiremos em nós mesmos a angústia de um mito arturiano.

Lancelot migra para longe e se perde na história, perseguindo através das eras seu objetivo inatingível. Ele persiste pela eternidade, não por que acredita em sua missão, mas por que – na verdade – quer evitar as chamas de um amor proibido.

Restará para Guinevere o conforto de saber que foi amada tão intensamente que por séculos, alguém continuará – errante em meio às estrelas – chamando todas as noites por seu nome.

Kanso, Mustafá Ali – A Cor da Tempestade (1.a Edição – Editora Multifoco – 2011 – Rio de Janeiro)

-81