março 16

Geni e o Zepelim – uma análise do clássico buarqueano

0
0

Composta e cantada por Chico Buarque, Geni e o Zepelim é um clássico do cancioneiro brasileiro, uma conhecida representante da boa música nacional. A canção, integrante do musical A ópera do malandro (1978) – cujo texto baseia-se na Ópera dos Mendigos (1918) de John Gay e na Ópera dos Três Vinténs (1928) de Bertold Brecht e Kurt Weill é ambientado num bordel e aborda a malandragem brasileira – também faz parte do álbum e do filme de mesmo nome lançados, respectivamente, em 1979 e 1986 (Wikipedia).

Na canção a história de Geni é brevemente contada pelo poeta, sendo a musa apresentada por alguém que canta sua trajetória de vida – um observador, que não só vê o que acontece à personagem, mas também parece perceber o que se passa em seu íntimo, como se conseguisse “ler” seus sentimentos. Embora a letra apresente sempre termos femininos para se referir à Geni, não há a certeza de que ela pertença a este gênero.

No musical A Ópera do Malandro, Geni, na verdade, é Genivaldo – um travesti – conhecido na cidade apenas pelo seu apelido. Geni não possui sobrenome – fato que nos remete à invisibilidade social daqueles que nascem, vivem e morrem, sem o devido reconhecimento da sociedade que os cerca. São muitas Marias e Josés e tantos outros que deixam como legado apenas o rastro invisível da não importância.

Imagem meramente ilustrativa
             Imagem meramente ilustrativa

Geni pode ser uma mulher ou um travesti – este fato pouco importa. O que a canção nos dá como certo é que Geni se prostitui desde a infância, como demonstra o verso: “Dá-se assim desde menina”. A prostituição infantil se constitui situação lastimável a que muitas crianças são submetidas devido às suas condições de vida, a ausência da proteção da família e do Estado e tantos outros fatores que influenciam neste grave problema social.

Segundo a UNICEF, em 2010, cerca de 250 mil crianças (principalmente meninas) encontravam-se em situação de prostituição no Brasil (Brasil Escola). A falta de assistência social e psicológica também se constituem fatores que contribuem para a fragilização da criança e sua consequente exploração sexual (Brasil Escola).

Geni não é a garota de programa de luxo que possui clientes ricos ou famosos. No verso “O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes” vê-se a classe social dos clientes de Geni. Assim como ela, também invisíveis para a sociedade, excluídos; aqueles a quem nada é ofertado. “É a rainha dos detentos” – os que vivem à margem da lei também usufruem dos dotes de Geni.

A orientação sexual da personagem se mostra mais clara no decorrer da canção, pois no início apenas indivíduos do sexo masculino são citados; mas ao mencionar ‘as loucas’ e ‘as viúvas’, percebemos que Geni (mulher ou travesti) é bissexual.

Por não negar se deitar com ninguém, a personagem é descrita pelo poeta como ‘um poço de bondade’ – motivo pelo qual a cidade a repele bruscamente. O asco que a cidade nutre por Geni fica claro no refrão: “Joga pedra na Geni! (…) Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! (…) Maldita Geni!”

Porém, um dia surgiu nos céus ‘um enorme Zepelim’, que, pairando sobre a cidade começou a disparar tiros de canhão, abrindo milhares de orifícios. Aterrorizados com a destruição anunciada, a cidade paralisou-se diante do Zepelim gigante, julgando que nada poderia ser feito. No entanto, do enorme dirigível, desceu o seu comandante, resoluto em explodir a cidade devido ao horror que viu nas ações de seus habitantes; porém, não o faria, desde que sob uma condição: se Geni o “servisse” naquela noite.

O comandante, representa na canção de Buarque, o luxo e o poder; um capitalista que julga-se superior a ponto de querer destruir uma cidade inteira por seu bel-prazer. A subserviência para com os mais afortunados também pode ser subentendida aqui, no momento em que a cidade decide não confrontar o comandante, mas apenas obedecer à sua vontade. Ironicamente, na canção, os opressores de Geni passam para a condição de oprimidos.

Imagem meramente ilustrativa
            Imagem meramente ilustrativa

Incrédula, a cidade não aceitava que seu destino estivesse nas mãos daquela por quem nutriam tanto ódio. Mas Geni tinha sua dignidade (embora a cidade não enxergasse isto), e ‘preferia amar com os bichos’ do que ‘deitar com homem tão nobre / tão cheirando a brilho e a cobre’. Talvez o asco que a personagem experimentou a vida inteira vindo de seus conterrâneos abastados, tenha feito com que ela também criasse por eles certo nojo como resposta.

Mas ao perceberem que Geni não se interessava pelo comandante e temendo por suas vidas, ‘a cidade em romaria foi beijar a sua mão’. A hipocrisia tão marcante em nosso meio aparece aqui claramente exposta pelo poeta, quando a cidade muda completamente de atitude em relação à personagem, passando a tratá-la como ‘bendita’. Geni vai de pecadora à santa num instante.

Comovida com os pedidos a amante cede aos desejos do comandante e salva a cidade que tanto a maltratava. Mas nem bem viram-se livres da enorme ameaça, os conterrâneos de Geni voltam a bradar em coro seu canto moralista, repleto de ódio, preconceito e intolerância.

O refrão “Joga pedra na Geni!” transformou-se numa espécie de bordão para retratar pessoas que se tornam alvo da execração pública (Wikipedia), seja por sua classe social, orientação sexual, raça, credo, posicionamento político, ou qualquer outro aspecto ou condição.

Geni é a trans assassinada, é o menino da favela, é a prostituta na calçada, é o homossexual na família, é a mulher violentada, é o negro escarnecido, é o idoso órfão dos próprios filhos. Geni é todo aquele que não tem nome nem sobrenome, não possui endereço, não tem profissão, não tem espaço, não tem vez e não tem voz. Geni é todo aquele que nasce e morre como indigente, sem nunca ser visto e nem reconhecido, sem nunca ser alguém.

E em nossa hipócrita “inocência” que nunca nos faz agressores, apenas vítimas, “esquecemos” de dizer em voz alta que também somos parte da opressão, da exclusão, do preconceito, do abandono. Em suma, como foi dito sabiamente por alguém: “Nós somos Geni, mas também somos a cidade”.

 

Núrya Ramos

 

No vídeo abaixo, Letícia Sabatella interpreta majestosamente Geni e o Zepelim.

Fontes:

Google Imagens

http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/prostituicao-infantil.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Geni_e_o_Zepelim

-9

Category: Música | LEAVE A COMMENT