fevereiro 1

Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei

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Um amor de infância; uma amizade fiel. É assim para Pilar e seu melhor amigo. Mas após onze anos vivendo em lugares diferentes e mantendo contato apenas por cartas, os dois se reencontram em Madri; e todo o sentimento que havia sido guardado por tanto tempo, calado atrás de inúmeras correspondências reaparece com todo o seu vigor e força.

Ela sonhava passar em um concurso público, arranjar um bom emprego e um casamento estável; ele vivia entre as paredes de um mosteiro, em meio a preces, compromissos e milagres. Mas o encontro dos dois em Madri dará início a uma jornada breve, porém profunda; onde seus destinos dependem de uma única escolha: viver um amor há tempos cultivado ou abraçar uma vocação e planos rotineiros.

Neste livro, Paulo Coelho nos leva a reflexões profundas sobre os sonhos e o preço de nossas escolhas; a fé sem tabus e o encontro com Deus. Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei é um romance de 1994, de leitura atraente, agradável, enriquecedora e altamente reflexiva, onde amor, amizade, fé e devoção precisam encontrar um equilíbrio entre duas almas.

 

Núrya Ramos

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julho 2

Crepúsculo dos Ídolos

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Crepúsculo dos Ídolos ou Como filosofar a marteladas, trata-se da penúltima obra do famoso filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), escrita e impressa em 1888 antes de o escrito ser acometido por um colapso mental em 1889. Nietzsche caracterizou esta sua obra como uma espécie de aperitivo destinado a instigar seus leitores a acompanhar e decifrar sua filosofia.

Nesta obra o filósofo “se lança contra os “ídolos”, as ilusões antigas e novas do Ocidente: a moral cristã, os grandes equívocos da filosofia, as idéias e tendências modernas e seus representantes” (Wikipédia). Composta de vários temas como o materialismo e a abordagem psicológica de artistas e pensadores, a obra se dispõe a mostrar a fragilidade dos ídolos quando usa da imagem figurativa do martelo na tentativa de mostrar a ausência de conteúdo dos mesmos.

Partindo da constatação de que “há mais ídolos do que realidades no mundo” e do pensamento de Sócrates em relação à destruição dos “ídolos” de sua época, o filósofo se põe a “aniquilar tudo aquilo que julga serem ídolos falsos, ocos e decadentes” (LPM); e reforça o chamamento da humanidade ao senso crítico e à tomada de posição, quando diz: “Que não sejamos covardes em relação aos nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! – O remorso é indecente.” – pensamento que claramente critica a omissão e a cegueira humanas.

Núrya Ramos

 

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crep%C3%BAsculo_dos_%C3%8Ddolos

http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=526091&ID=825260

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abril 13

O Segredo do Anel

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Teoria da conspiração; Jesus casado com Maria Madalena e pai de seus filhos; um enredo diferente da milenar história contada pela bíblia e disseminada pela Igreja Católica e outros ramos do Cristianismo; uma mocinha em busca de uma verdade que, caso trazida à tona, pode mudar os rumos da história mundial; um segredo guardado há milênios. Você já leu isso em algum lugar? Provavelmente sim. Mas não estou falando de O Código da Vinci ou outra obra do gênero, e sim do romance de Kathleen McGowan intitulado O Segredo do Anel, lançado em 2006 no Brasil pela Editora Rocco.

Trazendo como subtítulo ‘O legado de Maria Madalena’, a obra trata da empreitada da heroína Maureen Paschal em busca da verdade não contada sobre a história de Jesus Cristo. Tudo inicia-se quando Maureen refazendo o percurso da Via Crucis em razão de uma pesquisa para seu novo livro, depara-se com um mercador que presenteia-lhe com uma joia antiga – um anel um tanto quanto curioso cujo símbolo Maureen desconhece. Após o lançamento, o anel que aparece na mão da personagem na capa do livro é reconhecido por um nobre francês misterioso e sedutor chamado Berenger Sinclair.

Acreditando estar em face da Escolhida tão esperada pelos filhos da linhagem – os descendentes de Jesus e Madalena – Sinclair lança-se ao encontro de Maureen com uma proposta tentadora: uma estadia em seu castelo onde lhe revelaria o segredo em torno da morte misteriosa do pai de Maureen, prometendo contar-lhe a história que poucos conhecem em torno do passado da humanidade. Tentada a desvendar estes segredos a heroína vai ao encontro do nobre acompanhada de seu primo e mentor, o padre Peter Healy.

Inúmeros acontecimentos engolfam os personagens numa trama de segredos e conspirações onde nenhum deles é o que parece ou diz ser. Sociedades secretas também fazem parte deste enredo que muitos questionamentos suscita no leitor e que se dedica a refazer a reputação de mulheres que foram difamadas ao longo dos séculos. Embora intitule-se ficção, o romance parte da famosa conspiração em torno da vida humana de Jesus; o papel de Madalena, Salomé, Pilatos, Judas, João Batista e Maria – muitos deles apresentados pela autora como injustiçados pela história contada há milênios.

No emaranhado desta teia encontram-se obras famosas de grandes pintores interpretadas à luz da verdadeira história que estaria encoberta longe dos olhos de todos nós. O Segredo do Anel segue uma linha vendável pelo encantamento que exerce em seus leitores quando se trata de falar do que está escondido sob a poeira do tempo e do que poderia ser nosso presente e nosso futuro se a história contada obedecesse à realidade e não a manipulação do que foi escrito.

Núrya Ramos

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fevereiro 23

Água para Elefantes

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Embora já conhecido do grande público, estou aqui hoje para indicar o livro Água para Elefantes, de Sara Gruen. Publicado em 2006 nos EUA e lançado no Brasil em 2007 pela Sextante, a narrativa conta a história de Jacob Jankowski – um jovem estudante de veterinária que perde os pais num acidente automobilístico às vésperas de realizar as provas finais antes da formatura. Órfão, sem parentes e falido em decorrência das dívidas do pai, Jacob abandona sua casa e embarca clandestinamente em um trem durante a noite, que ele posteriormente descobre pertencer ao Circo Irmãos Benzini – O maior espetáculo da Terra.

Sem ter para onde ir e quase expulso do trem, Jacob é contratado para cuidar dos animais quando Tio Al – o diretor do circo – toma conhecimento de que o rapaz quase tornou-se um veterinário. A nova rotina muda totalmente a vida de Jacob – antes acostumado à quietude do interior. Tudo torna-se ainda mais novo quando ele conhece e se apaixona por Marlena, esposa de August (o treinador dos bichos) e grande estrela do show com os cavalos. Correspondido e proibido de viver seu amor, Jacob se encanta por Rosie – a elefanta comprada para salvar o circo da falência – e a ela dispensa seu afeto e proteção durante o correr dos dias.

encanta-elefantess

Levado às telas de cinema em 2011 pelo diretor Francis Lawrence, Água para Elefantes é estrelado por Robert Pattinson (no papel de Jacob Jankowski), Reese Witherspoon (como Marlena) e Christoph Waltz (August). Enquanto conta suas memórias Jacob faz uma viagem detalhada ao passado, dando ao leitor/espectador a sensação de estar de fato em um circo itinerante. O dia-a-dia circense e os fatos tristes que ocorrem longe dos olhos da plateia (como os maus tratos aos animais) também são vistos na obra.

Ao leitor deste blog que, porventura, ainda não tenha lido este romance ou não tenha visto o filme, vale a pena conferir cada um. Há muitas belezas no enredo de Água para Elefantes; nas palavras da própria autora “a vida é o maior espetáculo da Terra”.

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Water_for_Elephants_%28filme%29

http://pt.wikipedia.org/wiki/Water_for_Elephants

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dezembro 31

Nos Ombros do Cão

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“Não havia um só cão para espiá-lo fazer a barba, ou farejar seus pés sobre o cimento nu, olhos a espreitar de esguelha, zigue-zagues pelo pátio, arrastar de pernas, penas, botas, botinas, mágoas.
Não era domingo, e também não era noite para se tentar esconder as marcas dos corpos. Os cortes dos copos. Giletes. Estiletes. Pontas de facas.”

Assim se inicia o romance Nos ombros do cão de autoria do escritor mato-grossense Miguel Jorge. Como pano de fundo desta narrativa um dos períodos mais nebulosos da história brasileira: a ditadura militar. A trama em torno do assassinato de Ana – uma menina loira de olhos inocentes – pelo açougueiro do bairro – Gregório, o Galego – expõe uma época da vida brasileira onde os acontecimentos rotineiros e banais convivem com a repressão, a tortura, as prisões e os crimes do governo dos militares.
A obsessão de Galego por Ana, a luta de Masael – líder estudantil do Liceu de Goiânia, a perseguição dos governantes, o silêncio e ausência de Lilás – a mãe de Ana – são fios que conduzem o leitor a mergulhar nesta história carregada de mistérios, sofrimentos e sombras. Lançado em 1991 pela Editora Siciliano e vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional, Nos ombros do cão é um romance denso, forte e envolvente, que perscruta o que há de mais profundo e aterrorizante no ser humano.
Numa época em que as perseguições, o jogo de interesses e os desmandos do governo ditavam os rumos da vida da população, a luta incessante por justiça e a busca incansável por liberdade não surgem como meros figurantes, e sim, como elementos cruciais desta estória que envolve e sensibiliza o leitor. Nos ombros do cão é uma excelente obra literária que proporciona a quem mergulha em seu universo se sentir como se personagem da obra fosse.

Núrya Ramos

Fonte:
JORGE, Miguel. Nos ombros do cão. São Paulo, Siciliano, 1991.

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outubro 2

Um Passe de Mágica

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Em Um Passe de Mágica (obra escrita em 1952, de autoria da “Rainha do Crime” – como é conhecida a célebre romancista policial britânica Agatha Christie), temos mais uma aventura de Miss Marple (famosa personagem presente em outras obras de Agatha). Quando convidada pela velha amiga Ruth a fazer companhia por uns dias à sua irmã Carrie Louisie, Miss Marple nem imagina o que encontrará ao chegar em Stonygates – antiga mansão de Carrie onde ela reside com sua família.

Além da numerosa família e empregados, a casa ainda abriga uma escola-reformatório – onde existem crianças carentes e delinquentes juvenis. É neste cenário que Miss Marple depara-se com 03 crimes: o marido de Carrie sofre uma tentativa de assassinato, o enteado dela é morto e há a suspeita forte de que a própria Carrie Louisie esteja sendo envenenada.

Carregando a marca de Agatha em sua trama inteligente, bem tecida e com finais inesperados, Um Passe de Mágica proporciona ao leitor o suspense dos bons romances policiais sem cair na mesmice. Ao mergulhar na trama, é possível sentir-se como a própria Miss Marple: unindo pistas para solucionar um quebra-cabeças e desvendar a identidade do assassino. Solucionar o estratagema deste livro pode não parecer tão fácil, mas há que se lembrar sempre dos truques simples que dão vida à mágica.

Núrya Ramos

 

Fonte:

CRISTIE, Agatha. Um passe de mágica. 1ª. ed. Nova Fronteira: L&PM Pocket, Porto Alegre, 2006.

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setembro 20

Paris é uma Festa

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“Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.” Esta frase é de Ernest Hemingway (1899-1961); escrita em 1950 retrata o amor deste gênio literário por Paris – a cidade luz.

Baseado nas memórias do autor sobre sua vivência na capital francesa (1921 a 1926), Paris é uma Festa carrega um pequeno mistério deixado pelo próprio Hemingway ao por a cargo do leitor a definição da obra como ficção, se assim desejar. Iniciado no outono de 1957 e finalizado na primavera de 1960, em Cuba, o livro só foi lançado três anos após a morte de Ernest, em 1964.

paris é uma festa

Referindo-se aos tumultuados e felizes anos 20, a obra traz fotografias em preto e branco onde é possível ver o autor e outras personagens da época, bem como um boulevard – o Café du Dôme, ponto de encontro da burguesia parisiense. Com pitadas de amor, ironia, humor e saudosismo, Paris é uma Festa retrata a cidade que encantou o autor e apresenta seus amigos e desafetos.

Revelando mais do homem que do escritor, a obra tem grande valor literário no cenário mundial ao reviver a Paris dos primeiros tempos de Hemingway, quando o escritor – em suas próprias palavras – era muito pobre e muito feliz.

Núrya Ramos

Fontes:

HEMINGWAY, Ernest. Paris é uma Festa. Círculo do Livro, São Paulo.

http://www.folhetimonline.com.br/2012/07/12/resenha-paris-e-uma-festa-ernest-hemingway/

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setembro 9

Galeria de Curiosidades Médicas

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Publicado pela primeira vez no ano 2000, Galeria de Curiosidades Médicas é obra do reumatologista, cientista, escritor e professor sueco Jan Bondeson. Trata-se de um livro de não-ficção em que o autor traz uma variedade de bizarrices e anomalias genéticas relatadas na história da medicina. Através de sua pesquisa, Bondeson faz um resgate histórico acerca de inúmeros casos que intrigaram médicos, cientistas e a sociedade das épocas em que ocorreram; alguns tendo sido verídicos e outros não passavam de estratagemas de farsantes que visavam tornar-se o alvo da mídia e do interesse popular.

Crianças de duas cabeças, gigantes com 2,5 metros, tribos de homens com cauda, uma mulher que aparentemente teria dado à luz a dezessete coelhos, meninos escamados, combustão humana espontânea, gêmeos parasitas, são apenas alguns dos tipos de casos relatados por Bondeson em sua obra. São dez ensaios nos quais o autor apresenta prováveis diagnósticos para as anomalias e fenômenos, embasado nas descobertas científicas ocorridas desde então.

Além de retratar os fatos, o escritor também nos conta sobre o destino dessas personagens reais. Tratadas em sua época como verdadeiros monstros, muitas foram submetidas à apresentações nos conhecidos Circo dos horrores – tendas circenses que expunham pessoas com anomalias genéticas, esqueletos de animais, entre outras coisas, ao divertimento e curiosidade dos visitantes.

Jan Bondeson
Jan Bondeson

Durante uma entrevista em 2003, Bondeson declarou sempre ter tido interesse na história, em especial a da medicina, e um pouco de fantasia para o macabro e estranho. Lançado pela Editora Record, Galeria de Curiosidades Médicas traz 304 páginas – e fotografias dos casos – frutos de intensa pesquisa motivada pelo interesse do autor em torno deste tema. A obra vale a pena ser lida e difundida, posto que se trata de um passeio pela história de um dos ramos mais populares da ciência: a medicina.

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://en.wikipedia.org/wiki/Jan_Bondeson

http://www.martinsfontespaulista.com.br/galeria-de-curiosidades-medicas-153304.aspx/p

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agosto 1

Uma prova do céu

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Em novembro de 2008, o Dr. Eben Alexander III foi surpreendido por uma doença rara – uma meningite causada pela bactéria Escherichia coli que o fez ficar em coma por sete dias. Durante este período, o neurocirurgião enfrentou uma verdadeira batalha contra a morte; enquanto seus colegas de profissão buscavam tratamentos que pudessem salvar sua vida o tempo passava e a possibilidade de morte crescia rapidamente. Este episódio tornou-se um divisor de águas na vida do Dr. Alexander que afirma ter vivido uma EQM (experiência de quase morte), onde teria visitado o céu e tido contato com seres espirituais.

Em 2012, após recolher com a família relatos de seu período em coma e associar sua experiência à de outras pessoas através do estudo de várias obras referentes ao assunto, o Dr. Eben Alexander III lançou seu livro Uma prova do céu: a jornada de um neurocirurgião à vida após a morte, onde narra detalhadamente os acontecimentos que afirma ter vivenciado quatro anos antes. Lançado em 2013 no Brasil pela Editora Sextante, a obra trata-se de um best seller tendo figurado em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times por 35 semanas.

Pensar que este mundo físico é tudo o que importa é como se trancar em um pequeno quarto e imaginar que não há nada fora dele. (Alexander III, Uma prova do céu, p. 152)

As experiências de quase morte – também conhecidas pela sigla EQM – referem-se a um conjunto de visões e sensações frequentemente associadas a situações de morte iminente ou quase morte, sendo as mais divulgadas a projeção da consciência (também chamada de “projeção astral”, “experiência fora do corpo”, “desdobramento espiritual”, “emancipação da alma”, etc.). Apesar dos vários estudos e do interesse em torno das EQM, ainda não há prova nem um consenso científico a respeito deste tipo de fenômeno.

Em seu livro, o Dr. Alexander faz um relato emocionado de sua experiência, tentando conciliar ciência e espiritualidade. Criticado e questionado por uns e aclamado por outros como um relato verídico, Uma prova do céu traz reflexões acerca da vida após a morte, levando a questionamentos há séculos debatidos: Existe um outro mundo além do físico? É possível encontrar entes queridos já falecidos? O que nos espera após a morte?

Além disso, a obra traz novamente o impasse entre ciência e espiritualidade no que diz respeito a experiências extracorpóreas. Deixo ao amigo leitor a indicação desta obra como fonte de reflexão e aquisição de conhecimento sobre o assunto.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://en.wikipedia.org/wiki/Eben_Alexander_(author)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Experi%C3%AAncia_de_quase-morte

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julho 10

A Cor da Tempestade

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Ciência, ficção científica, valores morais, história e uma dose generosa de romantismo – eis a receita de sucesso de A Cor da Tempestade. A obra trata-se de uma coletânea de contos do escritor e professor paranaense Mustafá Ali Kanso (premiado em 2004 com o primeiro lugar pelo conto “Propriedade Intelectual” e o sexto lugar pelo conto “A Teoria” (Singularis Verita) no II Concurso Nacional de Contos promovido pela revista Scarium). Publicado em 2011 pela Editora Multifoco, A Cor da Tempestade já está em sua 2ª edição – tendo sido a obra mais vendida no MEGACON 2014 (encontro da comunidade nerd, geek, otaku, de ficção científica, fantasia e terror fantástico) ocorrido em 5 de julho, na cidade de Curitiba.

Entre os contos publicados nessa coletânea destacam-se: “Herdeiro dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” (conto disponível abaixo) que juntamente com obras de Clarice Lispector foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.” Prefaciada pelo renomado escritor e cineasta brasileiro André Carneiro, esta obra não é apenas fruto da imaginação fértil do autor, trata-se também de uma mostra do ser humano em suas várias faces; uma viagem que permeia dois mundos surreais e desconhecidos – aquele que há dentro e o que há fora de nós.

Em sua obra, Mustafá Ali Kanso contempla o leitor com uma literatura de linguagem simples e acessível a todos os públicos. É possível sentir-se como um espectador numa sala reservada, testemunha ocular de algo maravilhoso e até mesmo uma personagem parte do enredo. A ficção mistura-se com a realidade rotineira de modo que o improvável parece perfeitamente possível. Ao leitor um conselho: ao abrir as páginas deste livro, esteja atento a todo e qualquer detalhe; você irá se surpreender ao descobrir o significado da cor da tempestade.

Núrya Ramos

 

Referências

http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Cor_da_Tempestade

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mustaf%C3%A1_Ali_Kanso

http://www.lambda42.com/megacon-2014/

 

Você pode adquirir A Cor da Tempestade através dos links abaixo:

Editora Multifoco: http://bit.ly/1lVoYbc

Livrarias Curitiba: http://www.livrariascuritiba.com.br/searchresults.aspx?type=2&dskeyword=A+COR+DA+TEMPESTADE

Space Castle:

http://spacecastle.com.br/produtos/detalhe/340/a-cor-da-tempestade#.U73sNZRdW1U

 

Segue transcrito – e gentilmente cedido pelo autor – o conto Uma carta para Guinevere. Desejo a todos uma maravilhosa leitura!

 

Uma Carta para Guinevere

 

Nas primeiras vezes que liguei me disseram que você já tinha saído. Depois, que você ainda não tinha voltado. Os meios de comunicação evoluem tanto, apenas as mentiras permanecem.

Fiquei no intercomunicador até o último minuto. Queria me despedir e, acima de tudo, precisava ouvir sua voz.

O lançador está partindo agora, com seus engenhos explosivos, ele nos alçará em breve numa órbita confortável. Somos cinco a bordo, empertigados em nossos trajes branco pérola. Dez braços de um polvo humano adestrado, cumprindo tarefas decoradas, quase automáticas.

Nesse momento somos apenas luzes piscando em um painel de controle, cuidadosamente alinhavados numa lista de procedimentos.

Existe essa estática embaralhando as ondas e uma conspiração entre o momento e a distância, algo que me impede de ser mais incisivo, de ser mais honesto. Assim estou deixando gravado a inutilidade dessas palavras que alguma máquina ainda irá decodificar em bits, transformar numa energia vibrante, irradiada para Terra. Depois de interconectada não sei por quantas torres de repetição, esses pulsos etéreos serão materializados em letras gotejadas em um papel. Um correio especial levará uma anacrônica carta com o timbre da agência espacial. Espero que ao lê-la consiga por fim entender o que essa máquina não soube traduzir.

Depois de sacudidos por quase vinte minutos, chegamos num único fôlego a essa visão privilegiada da Terra.

O arco azul que se estende ao derredor, feito um ícone de magnitude e beleza, continua o mesmo. Tão majestoso e isolado que não se percebe a real dimensão de todos os pequenos dramas que acolhe.

É irônico, com tanto espaço lá fora, nos espremermos em uma latinha prateada, carregando nas costas tudo o que nos mantém vivos.

É claustrofóbico pensar o quanto nos resta de oxigênio, ou de água, ou de alimento, ou mesmo de sonhos. E, depois de todo o exaustivo treinamento, é terrível indagar sobre o quanto resta de cada um de nós. Talvez sejamos menos que uma promessa. De alguma forma não explicitada, apenas cobaias bem treinadas correndo dentro de um gigantesco labirinto.

Posso ouvi-la dizendo, como já me disse tantas vezes:

– Profissão ingrata, essa sua!

Acho que você sempre teve razão. Que diabos de ofício eu tenho?

Sou o comandante de uma guilda de sonhadores. Herdeiro de uma pretensão delirante. Essa que nos constrange em artefatos dantescos e nos expõe à morte todos os dias, apenas para tentar conquistar um espaço que nunca será nosso.

Nossa cápsula deu mais uma volta na Terra. Assisti a Austrália singrando para o amanhecer enquanto a imensidão da Eurásia acendia suas cidades.

Pude ver.

Já é noite em Avalon e os mistérios seculares não conseguem competir com o nosso. Não da mesma maneira.

Mesmo perante a amplidão que nos cerca não me coube nesse espaço a grande proeza de não pensar em você.

Não consigo entender o porquê de nosso descompasso, dessa coleção de frases soltas, que nos enrodilhou em palavras impensadas. Das amarras que se quebraram e eu como um balão perdido das mãos de uma criança descuidada, segui esse insólito caminho pelo qual flutuou toda minha vida, conduzida por um vento estranho.

Quando recordo de você, de nós, de todas as coisas que eu poderia ter dito, ou calado, um sentimento de fragilidade me invade, como se o traje que me protege fosse forjado em vidro e uma rachadura no peito se ampliasse expondo ao vácuo o que carrego de mais sagrado.

Por quê? É isso que me pergunto todas as vezes que passo e repasso nossa história. Mesmo sabendo que não existem culpados nem inocentes. Apenas uma comédia triste. Um filme mudo sem acompanhamento, sem ninguém para assistir, a não ser os infelizes protagonistas.

Quem poderia imitar essa coleção de gestos tragicômicos? Meus desastrados passos que me levaram tão distante de você enquanto seu olhar perdido tentava inutilmente esconder o mais simples desespero.

Adiantaria dizer que me arrependo de todas as minhas partidas? Você saberia que não.

Amo a paisagem dessa clarabóia. Amo as coisas que o espaço revela e todas as outras que ele oculta. Fiz desse ofício minha vida, mesmo custando a família, os amigos. Mesmo custando você.

Porém, odeio voltar para um apartamento vazio. Se ao menos tivéssemos filhos, talvez eu conseguisse visualizar um ensaio de família, coisas e ruídos preenchendo esse tempo que se esvai.

Mas o momento passou e tomamos outras decisões.

Sou surpreendido agora pela definitiva verdade que sem você já não tenho mais nenhum porto para onde voltar.

Queria que pudesse compreender a luta que me trouxe até aqui. Toda uma juventude que se esvaiu, tragada por incansáveis horas de treinamento.

Queria que pudesse sentir essa emoção de quando navego sobre o planeta, como agora, olhando para o norte e o sul ao mesmo tempo, entendendo, que não importa quão grande sejam nossos feitos que sempre seremos pequenos.

É inconcebível essa expectativa quando vejo o instante que se aproxima. O exato momento em que cortaremos nosso cordão umbilical e nos projetaremos para muito longe de tudo. Uma inacreditável sucessão de acontecimentos fantásticos que chamamos simplesmente de missão.

Não importa que já não exista prestígio e que esse mergulhar no espaço já seja rotina. Que a multidão não me reconheça quando caminho pelas ruas; eu que sujei minhas botas com as areias de Marte; eu que já carrego na alma a poeira das estrelas. O que importa é que eu já estive lá. Pude ver a Terra como um simples ponto luminoso ou como uma semi-esfera azulada e mesmo assim nunca me senti tão próximo, tão conectado. Nunca me senti tão humano.

Não é fácil abrir mão do que nos define. Fazer ruir os pilares que nos sustentam. Sei que minhas aspirações não são pequenas. Mesmo com esse meu jeito impróprio de existir, olhando para vida como se fosse um brinquedo novo.

Queria que entendesse que logo serei transformado em energia; e tudo aquilo que fui será destruído. A Física nos ensina que não podem existir dois átomos iguais no universo. Assim, meu corpo será transformado em ondas. As máquinas guardarão minha receita e serei apenas vibração viajando dentro de um raio luminoso. Isso mesmo! Viajarei dentro de um raio de luz. Mesmo com todas essas sombras que ainda carrego!

Um dia você me chamou de Lancelot: um cavaleiro honrado em sua armadura brilhante buscando o graal inalcançável da ciência.

Logo eu que sempre fui um plebeu inebriado por essa quixotesca demanda, a ponto de não ver mais que minha imagem no espelho.

Que fronteiras acharemos? Não sei.

No entanto, a relatividade explica que quando eu voltar, séculos terão se passado. Serei para a história apenas uma tênue lembrança de um instante longínquo.

Quisera que o tempo fosse outro e que as decisões não fossem tão definitivas.

O que importa agora é que repetiremos em nós mesmos a angústia de um mito arturiano.

Lancelot migra para longe e se perde na história, perseguindo através das eras seu objetivo inatingível. Ele persiste pela eternidade, não por que acredita em sua missão, mas por que – na verdade – quer evitar as chamas de um amor proibido.

Restará para Guinevere o conforto de saber que foi amada tão intensamente que por séculos, alguém continuará – errante em meio às estrelas – chamando todas as noites por seu nome.

Kanso, Mustafá Ali – A Cor da Tempestade (1.a Edição – Editora Multifoco – 2011 – Rio de Janeiro)

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