junho 17

Os Barcos

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Você diz que tudo terminou

Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou pra você

São só palavras, texto, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto, um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos

E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho
Baldio é o meu terreno e meu alarde
Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade e você com outro alguém

E você diz que tudo terminou

Mas qualquer um pode ver

Só terminou pra você
Só terminou pra você

(Legião Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo)

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março 16

Geni e o Zepelim – uma análise do clássico buarqueano

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Composta e cantada por Chico Buarque, Geni e o Zepelim é um clássico do cancioneiro brasileiro, uma conhecida representante da boa música nacional. A canção, integrante do musical A ópera do malandro (1978) – cujo texto baseia-se na Ópera dos Mendigos (1918) de John Gay e na Ópera dos Três Vinténs (1928) de Bertold Brecht e Kurt Weill é ambientado num bordel e aborda a malandragem brasileira – também faz parte do álbum e do filme de mesmo nome lançados, respectivamente, em 1979 e 1986 (Wikipedia).

Na canção a história de Geni é brevemente contada pelo poeta, sendo a musa apresentada por alguém que canta sua trajetória de vida – um observador, que não só vê o que acontece à personagem, mas também parece perceber o que se passa em seu íntimo, como se conseguisse “ler” seus sentimentos. Embora a letra apresente sempre termos femininos para se referir à Geni, não há a certeza de que ela pertença a este gênero.

No musical A Ópera do Malandro, Geni, na verdade, é Genivaldo – um travesti – conhecido na cidade apenas pelo seu apelido. Geni não possui sobrenome – fato que nos remete à invisibilidade social daqueles que nascem, vivem e morrem, sem o devido reconhecimento da sociedade que os cerca. São muitas Marias e Josés e tantos outros que deixam como legado apenas o rastro invisível da não importância.

Imagem meramente ilustrativa
             Imagem meramente ilustrativa

Geni pode ser uma mulher ou um travesti – este fato pouco importa. O que a canção nos dá como certo é que Geni se prostitui desde a infância, como demonstra o verso: “Dá-se assim desde menina”. A prostituição infantil se constitui situação lastimável a que muitas crianças são submetidas devido às suas condições de vida, a ausência da proteção da família e do Estado e tantos outros fatores que influenciam neste grave problema social.

Segundo a UNICEF, em 2010, cerca de 250 mil crianças (principalmente meninas) encontravam-se em situação de prostituição no Brasil (Brasil Escola). A falta de assistência social e psicológica também se constituem fatores que contribuem para a fragilização da criança e sua consequente exploração sexual (Brasil Escola).

Geni não é a garota de programa de luxo que possui clientes ricos ou famosos. No verso “O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes” vê-se a classe social dos clientes de Geni. Assim como ela, também invisíveis para a sociedade, excluídos; aqueles a quem nada é ofertado. “É a rainha dos detentos” – os que vivem à margem da lei também usufruem dos dotes de Geni.

A orientação sexual da personagem se mostra mais clara no decorrer da canção, pois no início apenas indivíduos do sexo masculino são citados; mas ao mencionar ‘as loucas’ e ‘as viúvas’, percebemos que Geni (mulher ou travesti) é bissexual.

Por não negar se deitar com ninguém, a personagem é descrita pelo poeta como ‘um poço de bondade’ – motivo pelo qual a cidade a repele bruscamente. O asco que a cidade nutre por Geni fica claro no refrão: “Joga pedra na Geni! (…) Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! (…) Maldita Geni!”

Porém, um dia surgiu nos céus ‘um enorme Zepelim’, que, pairando sobre a cidade começou a disparar tiros de canhão, abrindo milhares de orifícios. Aterrorizados com a destruição anunciada, a cidade paralisou-se diante do Zepelim gigante, julgando que nada poderia ser feito. No entanto, do enorme dirigível, desceu o seu comandante, resoluto em explodir a cidade devido ao horror que viu nas ações de seus habitantes; porém, não o faria, desde que sob uma condição: se Geni o “servisse” naquela noite.

O comandante, representa na canção de Buarque, o luxo e o poder; um capitalista que julga-se superior a ponto de querer destruir uma cidade inteira por seu bel-prazer. A subserviência para com os mais afortunados também pode ser subentendida aqui, no momento em que a cidade decide não confrontar o comandante, mas apenas obedecer à sua vontade. Ironicamente, na canção, os opressores de Geni passam para a condição de oprimidos.

Imagem meramente ilustrativa
            Imagem meramente ilustrativa

Incrédula, a cidade não aceitava que seu destino estivesse nas mãos daquela por quem nutriam tanto ódio. Mas Geni tinha sua dignidade (embora a cidade não enxergasse isto), e ‘preferia amar com os bichos’ do que ‘deitar com homem tão nobre / tão cheirando a brilho e a cobre’. Talvez o asco que a personagem experimentou a vida inteira vindo de seus conterrâneos abastados, tenha feito com que ela também criasse por eles certo nojo como resposta.

Mas ao perceberem que Geni não se interessava pelo comandante e temendo por suas vidas, ‘a cidade em romaria foi beijar a sua mão’. A hipocrisia tão marcante em nosso meio aparece aqui claramente exposta pelo poeta, quando a cidade muda completamente de atitude em relação à personagem, passando a tratá-la como ‘bendita’. Geni vai de pecadora à santa num instante.

Comovida com os pedidos a amante cede aos desejos do comandante e salva a cidade que tanto a maltratava. Mas nem bem viram-se livres da enorme ameaça, os conterrâneos de Geni voltam a bradar em coro seu canto moralista, repleto de ódio, preconceito e intolerância.

O refrão “Joga pedra na Geni!” transformou-se numa espécie de bordão para retratar pessoas que se tornam alvo da execração pública (Wikipedia), seja por sua classe social, orientação sexual, raça, credo, posicionamento político, ou qualquer outro aspecto ou condição.

Geni é a trans assassinada, é o menino da favela, é a prostituta na calçada, é o homossexual na família, é a mulher violentada, é o negro escarnecido, é o idoso órfão dos próprios filhos. Geni é todo aquele que não tem nome nem sobrenome, não possui endereço, não tem profissão, não tem espaço, não tem vez e não tem voz. Geni é todo aquele que nasce e morre como indigente, sem nunca ser visto e nem reconhecido, sem nunca ser alguém.

E em nossa hipócrita “inocência” que nunca nos faz agressores, apenas vítimas, “esquecemos” de dizer em voz alta que também somos parte da opressão, da exclusão, do preconceito, do abandono. Em suma, como foi dito sabiamente por alguém: “Nós somos Geni, mas também somos a cidade”.

 

Núrya Ramos

 

No vídeo abaixo, Letícia Sabatella interpreta majestosamente Geni e o Zepelim.

Fontes:

Google Imagens

http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/prostituicao-infantil.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Geni_e_o_Zepelim

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setembro 22

Paisagem da janela

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Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um voo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Mas eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Eu apenas era

Cavaleiro marginal lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal, banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral

Do quarto de dormir
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal

Um cavaleiro marginal, banhado em ribeirão
Você não quer acreditar

Composição: Fernando Brant / Lô Borges

Intérprete: Lô Borges

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outubro 10

Nós Dois

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E nós que nem sabemos quanto nos queremos
Que nem sabemos tudo que queremos
Como é difícil o desejo de amar

Você que nem me soube quanto eu quis
Que não coube, não me viu raiz
Nascendo, crescendo nos terrenos seus

Eu na janela olhando a lua, perguntando à lua
Onde você foi amar?

E nós que nem soubemos nos querer de vez
Estamos sós, laçados em dois nós
Um que é meu beijo o outro é o lábio seu

Não sei sair cantando sem contar você
Que eu sei cantar, mas conto com você
Que eu vou seguir, mas vou seguir você

Queria que assim sabendo se a gente se quer
Queria me rimar no seu colo mulher
Vencer a vida donde ela vier

Ganhar seu
Chegar no chegar meu
Dar de mim o homem que é seu

 

– Tadeu Franco –

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setembro 11

Reza Vela

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Larara….
A chama da vela que reza
Direto com santo conversa
Ele te ajuda te escuta
Num canto coladas no chão as sombras mexem
Pedidos e preces viram cera quente
Pedidos e preces viram cera quente

A fé no sufoco da vela abençoada no dia dormido
O fogo já não existe ali saíram do abrigo
São quase nada
A molecada corre e corre e ninguém tá triste
A molecada corre e corre e ninguém tá

Se tudo move se o predio é santo
Se é pobre mais pobre fica
Vira bucha de balão ao som de funk
E apertada tua avenida
A cera foi tarrada
Não se admire

Se tudo move se o prédio é santo
Se é pobre mais pobre fica
Vira bucha de balão ao som de funk
E apertada tua avenida
an an an a tua avenida,
an an an
A cera foi tarrada
Não se admire

Tá no céu não espere o tiro apenas mire
A cera foi tarrada
Não se admire
tá no céu balão de bucha não espere o tiro apenas mire

(2x)
Depois da benção o peito amassado
É hora do cerol é hora do traçado
Quem não cobre fica no samba atravessado
Sobe balão no céu rezado

A chama da vela que reza
Direto com santo conversa
Ele te ajuda te escuta
Num canto coladas no chão as sombras mexem
Viram cera quente
Viram cera

A fé no sufoco da vela abençoada no dia dormido
O fogo já não existe ali saíram do abrigo
São quase nada
A molecada corre e corre e ninguém tá triste
A molecada corre e corre e ninguém tá triste
A molecada corre ninguém tá
A molecada corre ninguém tá

Se tudo move se o prédio é santo
Se é pobre mais pobre fica
Vira bucha de balão ao som de funk
E apertada tua avenida
A cera foi tarrada
Não se admire

Se tudo move se o prédio é santo
Se é pobre mais pobre fica
Vira bucha de balão ao som de funk
E apertada tua avenida
An An An a tua avenida
An An An
A cera foi tarrada
Nao se admire

Ta no céu o balão de bucha não espere o tiro apenas mire
A cera foi tarrada não se admire
Ta no céu balão de bucha não espere o tiro apenas mire

sobe balão no céu rezado..larara
Sobe balão sobe balão sobe balão)

– O Rappa –

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agosto 6

Até Quando Esperar

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Não é nossa culpa nascemos já com uma benção
Mas isso não é desculpa pela má distribuição

Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração? (2x)

Até quando esperar?
E cadê a esmola que nós damos
Sem perceber?
Que aquele abençoado
Poderia ter sido você

Com tanta riqueza por aí, onde é que está
cadê sua fração? (2x)

Até quando esperar até me ajoelhar (2x)
Esperando a ajuda de Deus

Posso vigiar teu carro, te pedir trocados
Engraxar seus sapatos (2x)

Não é nossa culpa nascemos já com uma benção
mas isso não desculpa pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
esperando a ajuda de Deus
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda do divino Deus

– Plebe Rude –

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julho 26

Você Pode Ir Na Janela

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Se não vai
Não desvie a minha estrela
Não desloque a linha reta

Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim
Você quer me biografar
Mas não quer saber do fim

Mas se vai

Você pode ir na janela
Pra se amorenar no sol
Que não quer anoitecer

E ao chegar no meu jardim
Mostro as flores que falei

Vai sem duvidar
Mas se ainda faz sentindo, vem
Até se for bem no final
Será mais lindo

Como a canção que um dia fiz
Pra te brindar

Você pode ir na janela
Pra se amorenar no sol
Que não quer anoitecer
E ao chegar no meu jardim
Mostro as flores que falei

Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim

 

Intérprete: Gram

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julho 22

Editora lançará diário de Renato Russo

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No próximo sábado (25/07/15), durante evento no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), a editora Companhia das Letras lançará obra importante para os fãs da banda Legião Urbana e admiradores de seu inesquecível vocalista Renato Russo. Intitulada ‘Só por hoje e para sempre – Diário do Recomeço’, trata-se do material no qual o cantor registrou sua passagem pela clínica de reabilitação Vila Serena, no Rio de Janeiro. A internação que durou 29 dias (entre abril e maio de 1993) rendeu desenhos, cartas, anotações e bilhetes, nos quais o cantor falou sobre sua relação com Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá (parceiros de banda), os amigos, a família, além de tratar sobre homossexualidade.

Internado para tratar o vício em álcool e drogas (cocaína e heroína), Renato Russo continuou expressando sua criatividade e emoções durante o tratamento. Giuliano Manfredini, único filho do cantor é quem assina a introdução do livro, sobre o qual escreve: “A leitura desses escritos permitirá aos leitores se aproximar de um Renato Russo que poucos tiveram a oportunidade de conhecer. Um Renato Russo íntimo: detalhista, sentimental, generoso”. Durante o evento haverá exibição do filme “Faroeste caboclo” e do documentário “Rock Brasília – Era de ouro”. A entrada é franca, porém algumas atividades estão sujeitas à lotação do auditório.

renato-russo-holograma(1)

Segue abaixo um trecho do livro previamente cedido para publicação e divulgação do mesmo, onde o líder da Legião Urbana se refere a uma apresentação da banda em Angra dos Reis:

Nossa pior apresentação deve ter sido em Angra dos Reis, em 1985, quando, além de beber, usei cocaína. Era um festival com várias bandas, pessimamente organizado. Não houve passagem de som e as guitarras estavam desafinadas e eu desafinei o tempo todo (logo eu, eleito o melhor cantor de rock pela revista Bizz e JB por seis anos seguidos). Se estivesse sóbrio, teria controle sobre a situação, em vez de insistir que o erro não era só meu (o que de fato não era, mas, sendo o líder da banda, a responsabilidade foi minha). Por acaso nosso técnico de som gravou a apresentação e fiquei a noite inteira ouvindo aquilo, muito, mas muito chateado e frustrado. Me senti um perfeito idiota e prometi q. isso nunca mais iria acontecer. Me senti muito mal depois, emocionalmente.”

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://g1.globo.com/musica/noticia/2015/07/renato-russo-leia-trecho-do-diario-do-rehab-so-por-hoje-e-para-sempre.html

Google Imagens

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julho 13

Fátima

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Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Vocês se perdem no meio de tanto medo
De não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender
E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
Se começa, um dia acaba, eu tenho pena de vocês

E as ameaças de ataque nuclear
Bombas de nêutrons não foi Deus quem fez
Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes, pensam que são reis
Não quero ser como vocês
Eu não preciso mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz

Três crianças sem dinheiro e sem moral
Não ouviram a voz suave que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Ela talvez tivesse um nome e era: Fátima
E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou
E no terceiro dia ninguém ressuscitou

– Capital Inicial –

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julho 6

Zé do Caroço

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No serviço de alto-falante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Aí como eu queria que fosse em mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é o Morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda gente com a sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira

(Intérprete: Seu Jorge)

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