março 3

Terror religioso

0
0

Há alguns dias um fato extremamente repulsivo chocou a população da Nicarágua. Uma mulher de 25 anos foi queimada em uma fogueira por fanáticos religiosos num suposto ritual de “purificação religiosa”. Os responsáveis pela morte de Vilma Trujillo García acusaram a vítima de estar possuída pelo demônio – justificando assim o cruel ritual (El País).

De acordo com a Polícia Nacional da Nicarágua, a jovem foi levada, no dia 15 de fevereiro, para o templo da Igreja Evangélica Visão Celestial das Assembleias de Deus, em El Cortezal (comunidade economicamente desfavorecida, localizada próximo ao município de Rostia), para que passasse por uma “oração de cura”. No entanto, o que se seguiu foi um assassinato com requintes de crueldade e, possivelmente, orquestrado com extrema frieza.

No dia 21 de fevereiro, seis dias depois da suposta “oração de cura”, testemunhas do ocorrido declararam que a vítima – considerada ‘endemoninhada’ – teve os pés e mãos amarrados e foi lançada a uma fogueira feita no pátio do templo (G1). Não há relatos de que a vítima tenha permanecido em cárcere privado durante os seis dias entre sua “ida” ao templo e o ritual na fogueira.

Segundo a Polícia Nacional, a diaconisa da igreja, Esneyda del Socorro Orozco, foi a responsável por ordenar a execução do ritual, pois “por revelação divina, deveria ser feita uma fogueira no pátio do templo para curar a vítima por meio do fogo” (G1). O grotesco fato teria se dado sob supervisão do pastor da igreja, identificado pelas autoridades como Juan Gregorio Rocha Romero, juntamente com outros quatro membros da citada igreja. A Assembleia de Deus, através de seu presidente, Rafael Arista, nega reconhecer Rocha Romero como pastor ou membro da congregação (G1).

A jovem sofreu queimaduras de primeiro e segundo graus em 80% do corpo; chegou a ser levada a um hospital na capital Manágua e, após uma semana de intensa agonia, acabou falecendo no dia 28 de fevereiro (G1), em decorrência da gravidade dos traumas a que foi submetida.

Reynaldo Peralta, marido da vítima
Reynaldo Peralta, marido da vítima

Vilma Trujillo é mãe de duas crianças. Segundo o marido dela, Reynaldo Peralta, sua esposa foi levada à força pelos integrantes da Igreja, sob a acusação de que ela teria atacado pessoas com um facão. Para ele, sua mulher não estava “possuído pelo demônio” como acusavam os membros da igreja que a levaram, e sim, que ela havia sido vítima de “bruxaria” (G1). Ainda de acordo com o marido da vítima, ela teria sido estuprada; no entanto, as autoridades nicaraguenses não confirmam este crime. Reynaldo Peralta também denunciou às autoridades que ele e sua família estão sendo ameaçados (El País).

Até o dia 01 de março, cinco pessoas já haviam sido detidas por suspeita de participação no crime, entre elas estão o ‘pastor’ Rocha Romero e a diaconisa Esneyda Orozco (já citados neste post). Em sua defesa, Rocha Romero afirmou ao jornal La Prensa que Trujillo não foi lançada na fogueira, e sim, que ela teria caído no fogo “quando o espírito do demônio saiu do corpo dela” (G1).

Suspeitos detidos pela participação no crime
Suspeitos detidos pela participação no crime

Desde o acontecimento, há uma verdadeira comoção na Nicarágua em torno do caso. Naquele país o número de evangélicos tem crescido (chegando a quase 40% da população), em contraponto o número de católicos vem caindo há 20 anos (atualmente eles correspondem a menos de 50% do total). Pablo Cuevas, porta-voz da Comissão de Direitos Humanos da Nicarágua “pediu ao governo um controle mais firme dos grupos religiosos no país” (G1). Ainda segundo Cuevas, “as autoridades precisam avaliar diferentes denominações e religiões” (G1).

A vice-presidente da Nicarágua, Rosario Murillo, classificou o episódio como ‘condenável’ e afirmou que ele reflete uma situação de atraso; disse ainda que é “lamentável, uma irmã sendo martirizada pelos membros de sua comunidade” (G1).

Em declaração ao El País, Juanita Jiménez, integrante do Movimento Autônomo de Mulheres da Nicarágua – uma das organizações feministas mais combativas – disse que as autoridades precisam investigar profundamente o caso. Para ela, houve uma tentativa de encobrir o abuso sexual supostamente cometido contra a vítima (El País).

“Há uma total desproteção institucional para as mulheres. Não há autoridades combativas que persigam este tipo de delito, que fica na impunidade. Este é um exemplo do retrocesso em direitos humanos que o país sofre, um retrocesso que recoloca o país no obscurantismo”, acrescentou a feminista nicaraguense (El País).

O caso Vilma Trujillo revela problemas sociais graves – em especial a violência contra a mulher e o fanatismo religioso. Em 2013, a Nicarágua presenciou manifestações de homens contra a Lei Integral Contra a Violência Cometida contra Mulheres. Conhecida como lei 779, a normativa “estabelece a punição de até 30 anos de prisão para homens que exerçam violência física ou psicológica contra meninas, adolescentes e mulheres adultas” (BBC).

“Os manifestantes, apoiados por organizações civis e representantes das igrejas católica e evangélica, dizem que a legislação”, que entrou em vigor em 2012, “rompe o princípio constitucional de igualdade” (BBC). Nota-se que a comunidade evangélica daquele país não se posicionou contra a violência de gênero (ou dela fez pouco caso) por, talvez, definir que a mulher esteja em “pé de igualdade” em relação ao homem. Hoje, esta mesma comunidade, vê o nome de uma de suas congregações atrelado a uma violência descomunal e sem limites.

Protesto contra os feminicídios em Manágua
Protesto contra os feminicídios em Manágua

Já naquela época, os defensores da lei citada acima, advertiam para o fato de que a mesma não continha as agressões e assassinatos de crianças, adolescentes e mulheres. Ainda em 2013, a Secretaria da Mulher e da Infância afirmou que, em todo o país, eram apresentadas cerca de 97 denúncias por dia relacionadas a atos de violência contra a mulher (BBC).

No mesmo ano, alguns setores da igreja evangélica nicaraguense coletaram assinaturas contra a lei 779, por considerar que “há um comportamento tradicional que a mulher deve cumprir” (BBC). Relaciona-se, deste modo, que a visão conservadora sobre a mulher e seu papel na sociedade fomenta, em muitos casos, os atos de violência.

Percebe-se, não só pelo caso Vilma Trujillo, mas por inúmeros outros casos e fatos históricos (como por exemplo a Santa Inquisição, promovida pela Igreja Católica durante a Idade Média), que o fanatismo religioso é extremamente danoso para a sociedade, pois caracteriza-se “pela devoção incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção religiosa” (Wikipedia).

O termo fanatismo tem origem religiosa (do latim fanaticus – inspirado pelos deuses). Entre os romanos, denominava-se, assim, “o indivíduo inspirado pela divindade ou “impregnado” da presença divina” (Wikipedia). Os fanáticos religiosos acreditam ter contato direto com as divindades nas quais acreditam; e é pautando-se nesta crença que eles justificam seus atos mais cruéis, sob a justificativa de purificar algo ou alguém.

Embora não se admitam violentos ou intolerantes, estes indivíduos cometem toda sorte de atrocidades em nome daquilo em que acreditam, mesmo que seus atos custem a vida de outrem ou o bem estar da coletividade. Este tipo de fanáticos não admite coexistir com outras religiões que preguem doutrinas que divergem da(s) sua(s); abominam a homossexualidade, como se esta fosse uma aberração da natureza; não admitem a existência de pessoas que não possuam crença em Deus; negam qualquer grupo que não seja aquele formado de acordo com seus preceitos como família; são contra métodos contraceptivos, e etc.

Infelizmente, o caso Vilma Trujillo não é único e dificilmente será o último em que o fanatismo religioso lança mão da violência contra a mulher para cumprir aquilo em que acredita. Intolerância e total ausência de respeito para com o próximo é o que denomina esses seres vis, cruéis e abomináveis, que tanto julgam se achando ‘donos da verdade’, mas que não passam de uma escória, que se pauta na violência, na humilhação, na dominação e na opressão para se fazer superior, pois estes são os únicos meios que conhecem para que sejam vistos pelos demais.

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/07/130704_direito_mulheres_nicaragua_gm

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/28/internacional/1488301755_112117.html

http://g1.globo.com/mundo/noticia/mulher-morre-apos-ser-jogada-em-fogueira-por-grupo-religioso-na-nicaragua.ghtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/caso-de-mulher-possuida-queimada-em-fogueira-em-igreja-evangelica-choca-nicaragua.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fanatismo_religioso

-4