junho 22

Lei de Gérson – a cultura da falta de ética

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Você já ouviu falar no ‘jeitinho brasileiro’? Aposto que sim. Com certeza, você também deve ter a sua definição sobre essa expressão’; mas vejamos o que isso realmente significa. A Lei de Gérson – popularmente conhecida como “jeitinho brasileiro” – originou-se de uma propaganda dos cigarros Villa Rica lançada em 1976, em que Gérson de Oliveira – um dos melhores meio-campistas da história do futebol brasileiro – aparece falando sobre as vantagens do cigarro em questão.

A frase “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também”, acabou perdendo-se do contexto original, passou a ser interpretada erroneamente e difundiu a ideia de que vale tudo para levar vantagem – até mesmo cometer atos ilícitos – o que fez com que o errado parecesse certo.

Apesar de ser um jogador já consagrado na época, o “Canhotinha de Ouro” ficou marcado pela famosa propaganda do Villa Rica, o que o fez declarar posteriormente que arrependeu-se de ter estrelado a campanha que associou sua imagem ao pensamento de que é permitido qualquer coisa desde que se leve vantagem com isto; porém era tarde demais: seu nome já havia batizado a mais famosa “lei” brasileira.

O fato é que a maioria de nós brasileiros (na verdade, creio que todos nós) já se beneficiou com o tal jeitinho ou já fez uso dele em algum momento, e ainda ficamos mundialmente famosos por isso. De acordo com o diretor do comercial, o publicitário José Monserrat Filho, “houve um erro de interpretação, o pessoal começou a entender como ser malandro. No segundo anúncio dizíamos: ‘levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente’”. Tarde demais para a marca Villa Rica tentar desfazer o engano; as pessoas já haviam dado nome a algo que, no íntimo, já sabíamos que existia.

jeitinho 2

O cidadão Gérson de Oliveira – que miseravelmente deu nome à este tipo de prática – ao que parece ‘joga no time adversário’: o dos que importam-se mais com os benefícios coletivos. O ex-jogador dirige o “Projeto Gerson” e é Presidente de Honra do Instituto Canhotinha de Ouro, com sede na cidade de Niterói e que “atende cerca de 3.000 crianças e adolescentes que vivem em situação de risco social, por vezes tirando-os das ruas, dos sinais de trânsitos a esmolar, das marquises, das drogas, fornecendo-lhes esportes, alimentação, planos médico e odontológico, acompanhamentos pedagógico, nutricional e psicológico” (Infonet).

Enraizado na cultura popular, o jeitinho brasileiro é sinônimo da vantagem a qualquer preço, sem o respeito à ética, valores ou princípios morais. Da população mais simples à mais afortunada e abastada, todos conhecem essa maneira peculiar utilizada no dia-a-dia ilimitadamente.

O tal jeitinho não deixa de ser também uma forma de corrupção – conduta incorreta que atribuímos apenas a políticos desonestos, mas que também está presente em muitos atos cotidianos da sociedade como um todo. Corrupção não é sinônimo apenas de desvio de verba como muitos possam pensar; trata-se também de pequenas atitudes antiéticas, desonestas e ilegais, que você, caro leitor, pode não considerar corrupção, mas que de fato é, como por exemplo: furar fila, oferecer suborno a um guarda, não devolver o troco que veio a mais, colar nas provas, plagiar trabalhos, etc.

jeitinho 1

Na literatura nacional, Macunaíma – o herói sem nenhum caráter criado por Mário de Andrade – e a dupla João Grilo e Chicó – personagens de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna – representam o povo brasileiro em seus mais variados traços de personalidade, e em cuja história de vida explica-se o comportamento, muitas vezes, ilícito e imoral.

As práticas que constituem o ‘jeitinho brasileiro’ são, na maioria das vezes, justificadas por quem nelas incorre como uma maneira de reparação aos danos causados pelo governo. A população sente-se injustiçada e preterida em inúmeras situações, e parte de nós responde a isto cometendo infrações, sob a justificativa de que já fomos prejudicados e que não há mal algum em certos atos, mesmo sabendo que isso também prejudicará a outros.

Não há problema em desejar prosperar na vida, elevar o status social; trata-se aqui dos meios que se usa para alcançar estes e outros objetivos. Segundo a historiadora e pesquisadora da boemia Maria Izilda Matos, “a lei de Gerson funcionou como mais um elemento na definição da identidade nacional e o símbolo mais explícito da nossa ética ou falta de ética” (Isto É).

jeitinho 3

Entre aqueles que beneficiam-se dos cofres públicos para interesses particulares e os que se beneficiam através de pequenas atitudes antiéticas, a diferença reside no tamanho da oportunidade que cada um teve; pois a falha no caráter já existe, o que determinará o alcance da ação será o nível da oportunidade a que cada um teve acesso.

Se desejamos, enquanto sociedade, políticos melhores, precisamos educar as crianças e os mais jovens numa consciência diferente, onde o bem estar coletivo esteja sempre sobreposto ao particular. Teremos muito mais vantagens com um comportamento assim – que beneficiará a todos indistintamente – do que em atitudes que beneficiam apenas um único indivíduo (ou pequeno grupo de indivíduos) em detrimento dos demais.

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://www.infoescola.com/curiosidades/lei-de-gerson/

http://www.istoe.com.br/reportagens/27207_LEI+DE+GERSON

http://www.infonet.com.br/archimedes/ler.asp?id=153450

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Posted 22/06/2016 by Núrya Ramos in category "Ponto de Vista

About the Author

Núrya Ramos é graduada em Serviço Social, pós-graduada em Políticas Públicas e Intervenção Social e atualmente é pós-graduanda em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais. Atuou como tutora presencial na Universidade Anhanguera – UNIDERP (2012-2015) e como professora universitária no CEFELMA – Centro de Formação Educacional do Leste Maranhense (2012-2014). Apaixonada por literatura, música, cinema, culinária, mitologia, séries, futebol, fotografia, artes em geral e animais, também é poetisa amadora e flamenguista de carteirinha. Sonha em ser arqueóloga e percorrer o mundo desvendando os mistérios da nossa história.

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