dezembro 8

Continuidade

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O final da novela, do filme, da série, ou do livro, são mais importantes para o espectador/leitor do que a qualidade do próprio desfecho. A mente humana deseja insaciavelmente que as coisas tenham um começo e fim muito bem definidos, qualquer que seja a natureza a qual pertença: seja no mundo real, no mundo das ideias, ou nas conexões entre ambos.

Não é diferente na Ciência: estamos sempre querendo saber a origem da Humanidade, da Vida, do planeta Terra, da Lua, dos planetas, das estrelas, galáxias, do Universo, e mesmo o que houver além dele. Também queremos saber o fim de todas essas coisas, até que a última estrela de débil brilho do Universo se apague; e mesmo para a angustiante escuridão que será esse Universo, nós queremos saber o fim.

Mas é particular da Natureza não se adequar às nossas ânsias, e dessa vez não é diferente. Nós simplesmente não podemos dizer, à luz da evolução, qual foi o começo da humanidade, nossa origem. Já é um avanço podermos saber, pelas evidências, que viemos das savanas africanas. As religiões no campo das ideias conseguem responder em parte esse anseio pela origem, mas nada mais que etiologias que, ou acredita-se por pura e simples fé, ou dispensa-se pela total ausência de evidências e até de sentido. A realidade massacra todos os nossos idealismos e crenças, e choca a humanidade a cada passo dado; o mundo é muito mais dinâmico, vasto e imprevisível que o olho de nossas mentes possa conceber. Quando viveu o primeiro homem? Quando podemos separar de forma exata um ancestral hominídeo de um ser humano propriamente dito? Quando um homo-heidelbergensis deu luz a um homo-sapiens?

Não são apenas perguntas inviáveis de se responder hoje, são inviáveis de se responder sempre. A evolução dos seres vivos demanda de escalas de tempo que mal podemos compreender. Ela acontece por gerações a gerações, em passos tão graduais que procurar por elos perdidos é apenas uma mera expressão popular, de uma mente descontínua e padronizativa, que nada mais é que um fruto de nossa própria evolução; perceber padrões rapidamente foi o que permitiu a nossos ancestrais se desenvolverem socialmente, dominarem o meio em que viviam e evitar predadores sorrateiros. Essa característica está imersa profundamente em cada um de nós, e nosso modo de ver o mundo está preso nela. Na verdade, a quantidade de elos é imensurável, e a amostra de tudo que já viveu é minúscula em comparação a isto.

Pense por um momento, e veja se és capaz de responder qual o começo de sua própria história, de sua existência. Quando nasceu? Ou quando quando foi concebido? Seria quando seu pai e sua mãe se conheceram? Ou seria quando os avós por parte de pai e mãe se conheceram, já que seus genes vem desde eles e apenas foram passados para você?

Só essa regressão pode ir até onde se pode chamar de inconcebível, e a angústia de não poder responder pela própria origem na verdade, é constante – tudo que procuramos, são apenas alternativas flutuantes para saciá-la. Considerando os genes e a confusa definição de espécie, a história de qualquer um de nós remete à história de toda a humanidade, e pela mesma linha de origem e carga genética a história de toda a espécie humana remete ao ancestral de todos os primatas, que remete ao ancestral de todos os mamíferos, que por sua vez remete ao ancestral de todos os cordados, e por fim ao ancestral de todos os seres vivos. Como indivíduo, cada um de nós pode mesmo se considerar com alguns anos de vida, mas essencialmente, a carga genética de sua vida é tão antiga quanto a vida na Terra (algo em torno de 3,8 bilhões de anos de acontecimentos, gerações, e extinções). Essencialmente em nível atômico podemos nos perder novamente, e ver que somos tão antigos quanto o Universo. Os átomos que nos compõem e a energia que nos mantém podem ter uma forma nova e surpreendente, complexa e intrincada, mas a essência é a mesma da singularidade que há 14 bilhões de anos se expandiu dando origem ao Universo conhecido; mas antes dela não sabemos o que havia, e nossa mente se perde vertiginosamente mais uma vez.

Um dia, talvez se torne melhor simplesmente aceitar a realidade de que não há começo nem fim, mas apenas existência, e isso não é algo ruim. Do final do filme, da série, do livro, uma infinidade de arcos de história ainda poderiam continuar, e como nossa filosofia já ponderou, cada suposto fim é apenas uma transição, um novo começo; mostrando que a existência é um círculo, de fim e início constantes, que se encontram.

Agradecimento: Núrya Ramos, revisão e apoio

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Posted 08/12/2015 by Jonatas Almeida da Silva in category "Ponto de Vista

About the Author

Jonatas é Analista de Sistemas, Técnico em Informática e estudante autodidata de Computação Gráfica, Física e Química. Já trabalhou com Artes Plásticas, e apresentou seu projeto de Aplicações Web no Fórum Internacional do Software Livre. Suas paixões são Xadrez, Fotografia, Ecologia, Astronomia e Astrobiologia.

2 COMMENTS :

  1. By Núrya Ramos on

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    O artigo me lembra as perguntas que se faz no universo filosófico: de onde viemos?, para onde vamos?. Esse tipo de questionamento há muito tempo nos assalta; nossa necessidade de saber sobre o início e sobre o fim são tão grandes que às vezes passamos a vida a perseguir respostas que talvez nunca encontremos. Creio que o que acontece no intervalo entre o início e o fim é imensamente mais precioso que o momento inicial e o derradeiro. Parabéns pelo texto, querido. A reflexão que ele me trouxe é maravilhosa.

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