outubro 15

Professor: a desvalorização de um grande trabalho

0
0

15 de outubro. Dia do Professor! Na internet, na tv, no rádio, ou na rua, todos querem prestar algum tipo de homenagem – por mais singela que seja – a este profissional tão necessário a todo e qualquer povo. Não importa a raça, a cultura, o credo que se tenha, ou o espaço geográfico que se ocupa neste mundo, a nação a qual se pertence: todos nós já precisamos ou precisaremos ainda de um professor; e quanto mais altos sejam os lugares que quisermos alcançar, precisaremos de muito mais que um único educador.

Desde o(a) primeiro(a) professor(a), aquele(a) lá do jardim de infância que ensinou os primeiros rabiscos, os primeiros desenhos de letras, até aqueles mais renomados e instruídos que nos carregam por pensamentos, teorias e informações de alta complexidade, como dispensar um professor? Não! Não é possível dispensar aquele(a) que nos livra da ignorância, que nos abre janelas de pensamentos e sonhos e que, quando se vê, o voo já é tão alto e a sensação de liberdade tão fascinante que já não se tem mais vontade de voltar à velha casa, ao anterior estado intelectual em que nos encontrávamos.

Mas tanta importância, tamanha relevância, que parece ser notada de maneira tão latente, pode realmente ser tomada como sincera na sua totalidade? Não. Infelizmente não pode. Os números são alarmantes, assustadores e crescem numa velocidade vertiginosa: professores agredidos dentro e fora da sala de aula, xingados, achincalhados, humilhados, ameaçados, torturados (física e psicologicamente), mortos, por alunos, pais de alunos ou os ditos “responsáveis”. Exagero? Não. Realidade. Triste, cruel e perturbadora realidade.

oráculo205

Agressão não é apenas de caráter físico, ofensa provem de várias ordens, assassinatos não são apenas aqueles no sentido literal da palavra. Fala-se à boca pequena sobre o governo, culpa-se os gestores pela má qualidade do ensino, pelo sucateamento das escolas, pela precariedade do serviço, pela desvalorização do professor. Mas eu questiono baseada em Sigmund Freud: qual a nossa parcela de responsabilidade nessa desordem?

DESVALORIZAR não se refere única e exclusivamente ao aspecto financeiro; desvalorizar é o ato de NÃO VALORIZAR algo ou alguém. E não é apenas o governo que desvaloriza o professor, não são os políticos os únicos a fazer isto: NÓS TAMBÉM O FAZEMOS! E não finja que não estou falando com você que desrespeita, que ofende, que humilha porque paga, que ameaça, que debocha! Você que hoje, neste 15 de outubro – Dia do Professor – postou uma imagem homenageando aos mestres do país posando de cidadão consciente, politizado, culto, educado, enquanto no dia-a-dia faz exatamente o oposto. Um único dia de respeito aos professores não apagará os seus 364 dias anuais de má educação e ausência de dignidade.

Valorizar um professor não é apenas pagar bem – o nome disso é boa remuneração, é acima de tudo agraciar este profissional com o respeito que deve ser aprendido em casa, aquele respeito do fino trato, da educação de berço, que poucos (pouquíssimos) tem. E sendo ou não bem remunerado, o fato é que professor algum é admitido numa instituição de ensino para ser agredido, ameaçado, ofendido e humilhado. Nenhuma moeda neste planeta, nenhuma quantia monetária é capaz de ressarcir o dano causado pelas injúrias, agressões e ofensas de toda ordem que estes profissionais sofrem.

oráculo professor

Todas essas atitudes juntas causam a coisa mais grave que pode haver: o assassinato de um mestre (senão no sentido literal da palavra, mas no sentido figurado). Um professor morre não apenas quando seu corpo físico deixa de existir: morre também quando nele(a) morre o amor por educar, quando perde o prazer em estar na sala de aula, quando o medo se instala em sua cabeça, quando não consegue mais trabalhar de forma relaxada e espontânea; morre quando deixa de sonhar com um país melhor, quando deixa de acreditar que pode colaborar na transformação do mundo em que vivemos; morre quando passa a acreditar que nada mais pode ser feito, que a batalha da educação está perdida, que estamos todos fadados ao fracasso, ao insucesso, à mesquinhez.

Ao governo compete, sim, uma parcela generosa de contribuição para com este profissional – pois sem ele nenhum outro existiria; mas compete também a nós, a grande parcela do respeito diário e mútuo. À escola cabe a instrução, o repasse dos conhecimentos, o preparo técnico e profissional, aos pais e responsáveis cabe a EDUCAÇÃO de seus filhos; cabe ensinar a respeitar os outros, não ofender, não agredir, reconhecer seus próprios erros, desculpar-se por eles e tentar repará-los de alguma forma; cabe ensinar a diferenciar o que é certo e o que é errado, noção de limites e espaço alheio; cabe a formação do caráter; cabe o repasse dos princípios e valores; cabe o que é essencial para construir um cidadão digno, um ser humano exemplar.

oráculo professor 4

Pais, mães e responsáveis, se vocês não se veem como os primeiros e principais educadores de seus filhos, não imputem à escola ou aos professores a responsabilidade total pelo tipo de pessoa que eles irão se tornar. Você, que se omitiu desta ocupação, é o principal responsável pelas consequências dela.

Sociedade, não finja que é apenas o governo que tem uma conduta a ser reparada para com os professores: nós também temos a nossa enquanto grupo, coletividade. Para mim, não há o que comemorar neste dia; antes há que se lamentar por todo o descaso e desatenção que esta classe sofre. Aos hipócritas um pedido: parem de vestir suas máscaras de agradecimento e reconhecimento só porque hoje é 15 de outubro; em lugar de ofender com sua hipocrisia, tire as vestes da sua arrogância e insensatez, examine sua consciência, reconheça seus atos errôneos e depois mude de comportamento; só então diga a todo e qualquer professor: Parabéns pelo seu dia. Muito obrigado.

Núrya Ramos

 

*Nota: este artigo não possui fontes bibliográficas de embasamento, possui apenas a melhor fonte de aprendizado de que já dispus: a vivência.

-55


Tags:, ,
Copyright © 2014. All rights reserved.

Posted 15/10/2015 by Núrya Ramos in category "Ponto de Vista

About the Author

Núrya Ramos é graduada em Serviço Social, pós-graduada em Políticas Públicas e Intervenção Social e atualmente é pós-graduanda em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais. Atuou como tutora presencial na Universidade Anhanguera – UNIDERP (2012-2015) e como professora universitária no CEFELMA – Centro de Formação Educacional do Leste Maranhense (2012-2014). Apaixonada por literatura, música, cinema, culinária, mitologia, séries, futebol, fotografia, artes em geral e animais, também é poetisa amadora e flamenguista de carteirinha. Sonha em ser arqueóloga e percorrer o mundo desvendando os mistérios da nossa história.

Deixe uma resposta