janeiro 22

Eu não sou Charlie!

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Não. Você não está lendo errado. E não. Eu não sou fria, insensível ou calculista. Este artigo é fruto de minha opinião pessoal que gostaria de compartilhar com vocês, meus amigos. A expressão ‘Je suis Charlie’ (‘Eu sou Charlie’ em português) atualmente é a mais famosa na Europa e no restante do planeta. Se você viu qualquer veículo midiático nos últimos dias certamente deve saber do atentado ao jornal francês Charlie Hebdo no dia 07 de janeiro. Atiradores adentraram o escritório do jornal portando rifles Kalashnikov (G1) e abriram fogo contra os presentes. O atentado resultou na morte de 12 pessoas, entre elas Stéphane Charbonnier (editor e cartunista), Georges Wolinski, Jean Cabu e Bernard Verlhac (cartunistas).

Após o atentado milhares de pessoas saíram às ruas da França consternadas com o terror que assolou a capital; não só franceses, mas em todo mundo se viu expressões de solidariedade às vítimas do Charlie Hebdo, às famílias, ao povo francês e em favor da liberdade de expressão. Segundo o site UOL, os assassinos queriam se vingar dos autores das charges “que faziam piada com o profeta Maomé” tido como mensageiro de Deus e figura sagrada para o Islamismo, “religião popular principalmente nos países árabes e em outras partes da Ásia e da África”. Segundo o jornalista Louis Imbert, em artigo publicado no Le Monde, o Alcorão não proíbe a representação do Profeta (G1); no entanto, para os seguidores do Islã, isto não corresponde à verdade.

Charge do Charlie Hebdo usando a imagem do Profeta Maomé
Charge do Charlie Hebdo usando a imagem do Profeta Maomé

O fato é que as sátiras envolvendo a imagem de Maomé são vistas como ofensivas pelo povo muçulmano. Porém, a liberdade de expressão tem sido usada como principal argumento em defesa das pessoas mortas no ataque, em especial dos cartunistas. Não estou com isso querendo dizer que o atentado foi justo e que se pode matar a qualquer momento em nome de Deus ou de quem quer que seja. O próprio Papa Francisco concedeu uma declaração recentemente à imprensa em que condena o ataque, mas também não parece aprovar as atitudes do jornal, que desde 2006 publica charges usando a imagem do Profeta símbolo do Islamismo.

Creio que a liberdade de expressão que todos temos tão incansavelmente lutado para alcançar em todos os cantos da Terra, não é sinônimo de desrespeito à cultura e/ou crença alheias. Ter a liberdade de dizer o que se pensa, não nos confere o direito de ultrajar o outro com insultos, ou de atentar contra símbolos e figuras sagrados. Se a liberdade de expressão é um direito, a liberdade religiosa também o é. É lamentável que haja pessoas que creiam que matar em nome de uma entidade divina é correto e justo; mas também é lamentável que haja pessoas com intelecto e instrução mais elevados que creiam estar no direito de escarnecer de uma cultura ou crença da qual não fazem parte. Respeito é algo indispensável para a vida em sociedade; especialmente quando se almeja uma vida de paz.

Capa do Charlie Hebdo
Charge do Charlie Hebdo

Tenho visto milhares e milhares de pessoas nas redes sociais repetindo como ‘papagaios’ a expressão ‘Eu sou Charlie’ quando na verdade nem procuraram entender a real dimensão do problema. As “brincadeiras” que para os cartunistas eram apenas sátiras inocentes, para os islamistas eram grandes ofensas ao Profeta e a Allah (Deus). Infelizmente o mau uso desta liberdade custou 12 vidas.

Creio que as charges não justificam o atentado, porém creio também que não há o que justifique tamanho desrespeito. Tão preciosa quanto a vida humana é a fé para algumas comunidades. As charges não apresentam apenas Maomé, mas também outras figuras consideradas sagradas, como na imagem abaixo onde se vê a Santíssima Trindade do Cristianismo (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) numa ménage à trois (sexo a três). Obviamente para qualquer cristão determinada imagem é no mínimo chocante e desrespeitosa.

Charge do Charlie Hebdo
Charge do Charlie Hebdo

Enfim, não estou aqui dando graças a Deus pelo atentado e a morte de pessoas inocentes; no entanto também não acho engraçado o desrespeito à crença das outras pessoas. Penso que o primeiro passo para se obter respeito é oferta-lo. Vivemos em um mundo onde a diversidade religiosa é muito grande e as figuras sagradas são muitas: Cristo para os cristãos, Maomé para os islamistas, Buda para os budistas, Hórus para os egípcios, Shiva para os hinduístas, e etc.

Liberdade de expressão é tão importante quanto o respeito ao culto religioso.

Por tudo isso, que me desculpem os demais, mas ‘Je ne suis pas Charlie’!

 

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/01/1576091-entenda-o-que-aconteceu-no-ataque-ao-jornal-charlie-hebdo-em-paris.shtml

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/tiroteio-deixa-vitimas-em-paris.html

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/em-que-condicoes-o-isla-autoriza-representacao-do-profeta.html

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Posted 22/01/2015 by Núrya Ramos in category "Ponto de Vista

About the Author

Núrya Ramos é graduada em Serviço Social, pós-graduada em Políticas Públicas e Intervenção Social e atualmente é pós-graduanda em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais. Atuou como tutora presencial na Universidade Anhanguera – UNIDERP (2012-2015) e como professora universitária no CEFELMA – Centro de Formação Educacional do Leste Maranhense (2012-2014). Apaixonada por literatura, música, cinema, culinária, mitologia, séries, futebol, fotografia, artes em geral e animais, também é poetisa amadora e flamenguista de carteirinha. Sonha em ser arqueóloga e percorrer o mundo desvendando os mistérios da nossa história.

2 COMMENTS :

  1. By Jonatas Almeida da Silva on

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    Eu concordo sumariamente, Querida.

    Como não tenho religião, sátira com alguns elementos que confio, como o Naturalismo e a Ciência, não me afetam tanto, mas me coloco no lugar daqueles que tem sua crença em algo sagrado – pra eles é muito mais importante, e no seu direito de serem respeitado no seu espaço e sua expressão – assim como tenho meu direito de não concordar e de não ser pressionado por dogmas dessas crenças.

    Eu acho realmente o atentado algo monstruoso, matar pessoas dessa forma é e sempre será abominável. Mas também não sou Charlie porque não vejo rima entre liberdade expressão e ridicularização dos princípios de um povo. Liberdade de expressão é dizer, por exemplo, porque não concordo com os dogmas islâmicos, ou que simplesmente não concordo.

    Sobreo Charlie, acho um humor negro, medíocre e desnecessário. Humor pra mim tem que ser sagaz, e não vulgar – e ele tem que fazer sentido, e não ser simplesmente algo pra ofender os princípios de um povo.

    Não sou Charlie, muito menos apoiador de terrorismo.

    Bjos

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