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Suicídio assistido de norte-americana reacende polêmica sobre direito de morrer

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Há algumas semanas a jovem Brittany Maynard, 29 anos, tornou-se mundialmente famosa devido a um assunto polêmico e ainda um tabu para a sociedade em geral: o suicídio assistido. Brittany, uma norte-americana, anunciou ao mundo inteiro através de um vídeo publicado na internet que em breve daria fim à própria vida. Diagnosticada com um tumor cerebral maligno (gioblastoma) e extremamente agressivo, Maynard foi informada pelos médicos, em abril deste ano, que teria apenas seis meses de vida pela frente, e que sua morte seria demasiadamente dolorosa.

Brittany recebeu tratamento durante meses desde que foi diagnosticada com câncer após sofrer durante muito tempo com fortes dores de cabeça. Conforme previsão dos médicos, o avanço do tumor poderia causar a ela dores terríveis, e seu organismo viria a desenvolver resistência à morfina (medicamento utilizado no alívio das dores de pacientes em estado terminal), bem como apresentaria perda das capacidades verbais, cognitivas e motoras. Com base neste diagnóstico e sem esperanças de cura ou prolongamento de sua expectativa de vida, a jovem optou de maneira consciente pelo próprio suicídio.

A fim de conseguir permissão judicial para morrer, Maynard e seu marido precisaram mudar da Califórnia para o Oregon (um dos estados norte-americanos, que juntamente com Washington, Montana, Vermont e Novo México, permitem o suicídio com a assistência de médicos). Após provar à justiça sua enfermidade e que possuía menos de seis meses de vida, Brittany finalmente conseguiu permissão para morrer, recebendo posteriormente um coquetel letal de drogas prescritas pelos médicos para por fim à sua vida.

Brittany Maynard
Brittany Maynard

A decisão da jovem tornou-se alvo de polêmica e críticas em todo mundo, especialmente por parte da Igreja Católica, que condenou a escolha de Brittany através de um comunicado emitido pelo bispo dirigente da Academia Pontifícia para a Vida, Ignacio Carrasco de Paula. O bispo declarou que a Igreja não condena a norte-americana e sim o ato de suicídio escolhido por ela para encerrar sua dor e sofrimento, bem como o de sua família.

“Esta mulher fez isto pensando que poderia morrer com dignidade, mas é aí que reside o erro: cometer suicídio não é uma coisa boaé uma coisa perversa, porque é dizer não tanto à própria vida quanto a tudo o que significa respeito pela nossa missão neste mundo e por aqueles que nos são próximos”, sublinhou Carrasco de Paula, em declarações à agência de notícias italiana, ANSA (DN Globo).

Maynard também foi criticada por colaborar com a arrecadação de “fundos através da Compassion & Choices para defender o suicídio assistido como uma opção para pacientes terminais como ela, um ato que difere das opções mais discretas que muitos outros em sua posição escolhem” (G1). Diferente dela, muitos pacientes cometem suicídio de outras maneiras ao receberem o diagnóstico de doenças dessa natureza.

O físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking é um dos defensores do suicídio assistido. Diagnosticado aos 21 anos de idade com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o cientista hoje com 71 anos, é mundialmente conhecido por seus trabalhos sobre buracos negros. Hawking declarou apoio ao direito de suicídio desde que a pessoa envolvida faça esta escolha de maneira consciente e sem qualquer tipo de pressionamento para tal decisão. Em entrevista à BBC, Stephen declarou: “Eu acho que aqueles que têm uma doença terminal e estão sob grande dor devem ter o direito de escolher terminar com sua vida, e aqueles que os ajudarem devem estar livres de acusação”.

Stephen Hawking
Stephen Hawking

Na Inglaterra este ato é considerado crime; seus opositores defendem que flexibilizar a lei pode pôr as pessoas vulneráveis em risco. “Segundo registros, 1.173 pessoas já se valeram do Death with Dignity Act (Ato pela Morte com Dignidade) para solicitar receitas de drogas letais no Estado do Oregon. Deste total, 752 pacientes usaram medicamentos para morrer” (G1). Criticada por uns, elogiada e encorajada por outros, Brittany tornou-se o rosto dos pacientes em estado terminal e que anseiam por uma morte digna, aliviando e abreviando seu sofrimento, bem como de seus familiares e amigos.

De acordo com a antropóloga Débora Diniz, “professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, desde o início, a postura de Brittany contou pontos a favor daqueles que defendem o direito ao suicídio assistido. ‘Foi um caso bastante sensível e delicado, mas importante para o debate. Os oponentes do suicídio assistido alegam que as pessoas tomam essa decisão em um ato intempestivo. Brittany transformou isso num processo feliz’” (UAI).

Segundo a pesquisadora, no Brasil as discussões legais sobre o suicídio assistido são quase nulas, assim como no que se refere à eutanásia. A falta de leis e de um debate qualificado sobre o tema resulta em casos dramáticos, como situações em que pacientes levados pelo desespero acabam se submetendo a envenenamentos ou outras formas de por fim à própria vida.  Para muitos o assunto transcende o campo científico e legislativo e adentra a esfera espiritual; no entanto, é fato que há a necessidade de discussão sobre o tema, posto que não se trata apenas de um posicionamento coletivo, mas dos direitos individuais garantidos aos cidadãos pela Constituição.

Brittany Maynard morreu em 1º de novembro deste ano (data previamente escolhida por ela) em sua casa, em Portland, ao lado do marido, da mãe e de um médico amigo da família. Em suas últimas palavras dirigidas ao público, Brittany escreveu: “O mundo é um lugar bonito, viajar foi meu melhor professor, meus amigos próximos e meus pais são os que mais se doaram para mim. Tenho, inclusive, um círculo de apoio ao redor da minha cama enquanto escrevo… Adeus, mundo. Espalhem boa energia. Vale a pena!”.

Núrya Ramos

Fontes:

Californiana com câncer muda para Oregon para realizar suicídio assistido. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/10/californiana-com-cancer-muda-para-oregon-para-realizar-suicidio-assistido.html.

Decisão de Brittany Maynard dá nova voz ao suicídio assistido; falta debate sobre o tema no Brasil. Disponível em: http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2014/11/04/noticia_saudeplena,151111/decisao-de-brittany-maynard-da-nova-voz-ao-suicidio-assistido-falta-d.shtml.

Físico Stephen Hawking defende direito ao suicídio assistido. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/09/fisico-stephen-hawking-defende-direito-ao-suicidio-assistido.html.

Jovem com câncer terminal decide morrer em 1º de novembro. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/10/jovem-com-cancer-terminal-decide-morrer-em-1-de-novembro.html.

Suicídio assistido de Brittany Maynard é “perverso”. Disponível em: http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4219440.

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Posted 07/11/2014 by Núrya Ramos in category "Ponto de Vista

About the Author

Núrya Ramos é graduada em Serviço Social, pós-graduada em Políticas Públicas e Intervenção Social e atualmente é pós-graduanda em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais. Atuou como tutora presencial na Universidade Anhanguera – UNIDERP (2012-2015) e como professora universitária no CEFELMA – Centro de Formação Educacional do Leste Maranhense (2012-2014). Apaixonada por literatura, música, cinema, culinária, mitologia, séries, futebol, fotografia, artes em geral e animais, também é poetisa amadora e flamenguista de carteirinha. Sonha em ser arqueóloga e percorrer o mundo desvendando os mistérios da nossa história.

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