março 30

Cassandra – a princesa profetisa

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Cassandra (em grego: Κασσάνδρα) era a filha mais bela do rei Príamo e da rainha Hécuba de Tróia. Irmã gêmea de Heleno, Cassandra era fiel servidora de Apolo e sacerdotisa de seu templo. Sua beleza era tão fascinante que Apolo apaixonou-se por Cassandra, e como presente ofereceu a ela o dom da profecia em troca de seu amor. A princesa aceitou a oferta, porém tempos depois rompeu sua parte no acordo. Como castigo Apolo retirou-lhe a credibilidade; desta maneira Cassandra continuaria sendo capaz de prever o futuro, porém suas palavras seriam desacreditadas por todos que a ouvissem. Tida como a profetisa da desgraça, Cassandra tornou-se desacreditada por seu próprio povo.

“E das minhas queixas desdenham,

E escarnecem da minha dor,

Só, tenho de levar para os desertos

O meu coração sofredor,

Sendo pelos ditosos evitada

E para os felizes um escárnio!

Severamente me castigaste,

Pítico, tu, malévolo deus!

(…)

A minha cegueira, dá-ma de novo

E o seu sentido alegre, obscuro.

Não mais cantei canções felizes

Desde a tua voz asseguro.

Deste-me o futuro de presente,

Mas privaste-me do momento,

 Levaste-me as horas felizes da vida.

Toma de volta o teu falso presente!”

(Trecho do poema Cassandra, de Friedrich Schiller; escrito no início de Fevereiro de 1802 e publicado no Taschenbuch für Damen für das Jahr 1803).

Prevendo a queda de Tróia e de seus heróis, Cassandra passou a alertar a todos sobre o trágico destino que se aproximava dos muros da cidade; a sacerdotisa apelou ao pai que o cavalo de madeira (engendrado por Ulisses) deixado como presente pelos gregos às portas de Tróia não fosse aceito, devendo ser destruído; porém o descrédito a que estava submetida fez com que nem mesmo seu pai, o rei Príamo, acreditasse nela. A cidade foi tomada pelos guerreiros gregos, incendiada e os homens e crianças do sexo masculino foram mortos durante o ataque.

“Para anunciar o teu oráculo,

Por que me enviaste à cidade,

Onde habitam os cegos eternos,

Se tenho o espírito iluminado?

Porque me levaste a ver

O que não me é concedido mudar?

O determinado tem de acontecer,

O temido tem de se aproximar.

 

De que serve levantar o véu,

Onde a tragédia se ameaça?

A vida vivemo-la no erro,

E o conhecimento é a morte.

Leva, oh!, leva a triste claridade,

Leva de mim o seu brilho sangrento!

Terrível é ser arauto fatal

Do teu conhecimento.”

 

(Trecho do poema Cassandra, de Friedrich Schiller)

A guerra de Tróia resulta na morte de Heitor – príncipe troiano e irmão de Cassandra – pelas mãos de Aquiles. Andrômaca, viúva de Heitor, é levada por Neoptólemo – filho de Aquiles – e escravizada por ele juntamente com Heleno, seu cunhado. Neoptólemo também foi responsável pelas mortes de Astíanax (filho de Heitor), Polites e Polixena (irmãos de Cassandra) e do rei Príamo. Com a cidade tomada pelos gregos, Cassandra refugiou-se no templo de Atena, onde foi descoberta e violentada por Ájax, filho de Oileu. Na partilha dos despojos de Tróia, a princesa é dada a Agamenon e levada por ele em sua viagem de volta à Micenas. Após a morte de Agamenon, Cassandra foi à Cólquida, de onde saiu com Zakíntio para fundar uma nova cidade, orientados pelos deuses.

“E vejo brilhar a espada assassina,

E os olhos da morte brilham,

Nem à direita ou à esquerda,

Posso escapar ao pesadelo.

Não posso voltar os olhos,

Sabendo e olhando; sem parentes,

Tenho de cumprir o meu destino,

Caindo em terra de outras gentes.”

 

(Trecho do poema Cassandra, de Friedrich Schiller)

Por se tratar de uma figura emblemática na história da mitologia, a princesa de Tróia e sacerdotisa de Apolo é usada como referência na denominação de um complexo definido como Mal de Cassandra ou Complexo de Cassandra, em que o indivíduo que o possui sofre pelo fato de alertar quanto à questões delicadas e enfrentar o descrédito dos demais. Musa inspiradora deste blog, Cassandra é uma personagem envolvente e demasiadamente interessante. Assim como a princesa troiana os que sofrem deste mal são tidos como desagradáveis e loucos. Há milhares de anos Cassandra passeia pela história, como a profetisa desacreditada dotada de um dom excepcional e extrema beleza; nos dias atuais Cassandra vive através daqueles que como ela falam aquilo que nem todo mundo quer ouvir.

Núrya Ramos

 

Fontes:

http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2011/01/cassandra-e-heleno-os-filhos-de-priamo.html

http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0531

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cassandra

http://pt.wikipedia.org/wiki/Neopt%C3%B3lemo

http://solfirmino.blogspot.com.br/2008/09/tragdia-de-cassandra-princesa-de-tria.html

http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/BEC41/12_-_CASSANDRA___VOX_FEMINA_TRAGICA.pdf

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Posted 30/03/2014 by Núrya Ramos in category "Mitologia

About the Author

Núrya Ramos é graduada em Serviço Social, pós-graduada em Políticas Públicas e Intervenção Social e atualmente é pós-graduanda em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais. Atuou como tutora presencial na Universidade Anhanguera – UNIDERP (2012-2015) e como professora universitária no CEFELMA – Centro de Formação Educacional do Leste Maranhense (2012-2014). Apaixonada por literatura, música, cinema, culinária, mitologia, séries, futebol, fotografia, artes em geral e animais, também é poetisa amadora e flamenguista de carteirinha. Sonha em ser arqueóloga e percorrer o mundo desvendando os mistérios da nossa história.

2 COMMENTS :

  1. By Jonatas on

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    O Mal de Cassandra se configura na verdade no mal das pessoas, que não ouvem/acreditam nela, sendo que o que ela fala é verdade, e se a ouvissem seria melhor para eles. Os deuses gregos sempre são muito ardilosos, de fato, podem distorcer dons em maldições. Ótimo Post, parabéns querida

    1. By Núrya Ramos (Post author) on

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      0

      Obrigada, querido! É frustrante observar que muitos vivem por aí como Cassandra em sua época: alertando os demais sobre problemas vindouros e sendo tratados como pessoas desagradáveis.

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